8 de janeiro de 2016

Gato que brincas na rua, Fernando Pessoa

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

                                                  Fernando Pessoa, 1931

Parabéns, Mr. Bowie!

69 anos e o 25.º álbum para comemorar. Imparável, este senhor, sempre capaz de se adaptar e de lançar novas tendências.

A rapariga dinamarquesa, de Tom Hooper


Excelente escolha para primeiro filme do ano. Passado em Copenhaga e em Paris nos anos 20 do século passado, retrata, resumidamente, a nível físico e emocional, o primeiro processo conhecido de mudança de sexo da História.

Einar e Gerda Wegener são um casal de pintores que vivem aparentemente felizes, apesar de sem filhos, num constante processo criativo. Até que um dia, perante a falta de uma modelo para pintar um quadro, Gerda pede ao marido que se vista de mulher para poder terminar a sua obra. E é aí que se dá o clique, e que Einar começa a consolidar a sua desadequação ao corpo de homem com que nasceu. 

É um filme dramático que retrata uma história verídica, a transformação de Einar Wegener em Lili Elbe. Terrível o confronto interior de Einar, incapaz de conciliar o seu corpo com a sua mente. Mais terrível ainda o apoio que Gerda dá ao marido em todo o processo, com uma dedicação e abnegação inigualáveis. Eddie Redmayne está excelente, mas Alicia Vikander ainda mais. Tenho a certeza de que será um forte candidato aos Óscares.

7 de janeiro de 2016

Para que saibam sempre com o que contam

Gato, Alexandre O'Neill

Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pêlo, frio no olhar!

De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?

                                                              Alexandre O'Neill

As leituras de 2015

O ano de 2015 não foi um ano muito produtivo em termos de quantidade de leituras, comparando com o ano anterior. Mas não perdeu em qualidade. Foram poucos os livros que podia não ter lido.

Esta é a lista de 2015, apesar de tudo extensa comparando com a de 2016, que se adivinha quase de certeza mais curta:

- Contos reunidos, de Aldous Huxley
- Machu Picchu, de Tony Bellotto
- A grande arte, de Rubem Fonseca
- A arte cavalheiresca do arqueiro zen, de Eugen Herrigel
- A dama do lago, de Raymond Chandler
- Montedor, de Rentes de Carvalho
- O miniaturista, de Jessie Burton
- A small fortune, de Rosie Dastgir
- As dez mulheres do industrial Rauno Ramekorpi, de Arto Paasilinna
- Dress you family in corduroy and denim, de David Sedaris
- A mulher de verde, de Arnaldur Indridason
- O bom alemão, de José Manuel Saraiva
- A casa vermelha, de Mark Haddon
- O mistério do lago, de Arnaldur Indridason
- A man called Ove, de Fredrik Backman
- The children act, de Ian McEwan
- Conhecereis a nossa velocidade!, de Dave Eggers
- A rapariga no comboio, de Paula Hawkins
- Gosto disto aqui, de Kingsley Amis
- Na urgência, de Joana Bénard da Costa
- O pintassilgo, de Donna Tartt
- Malditos - Histórias de homens e de lobos, de Ricardo J. R. Rodrigues
- Summerhouse with swimming pool, de Herman Koch
- Número zero, de Umberto Eco
- Submissão, de Michel Houellebecq
- Her, de Harriet Lane
- A porteira, a madame e outras histórias de portugueses em França, de Joana Carvalho Fernandes
- Family life, de Akhil Sharma
- As gémeas do gelo, de S. K. Tremayne
- Your fathers, where are they? And the prophets, do they live forever?, de Dave Eggers
- A rapariga apanhada na teia de aranha, de David Lagercrantz
- A lição de anatomia, de Philip Roth
- Em teu ventre, de José Luís Peixoto

6 de janeiro de 2016

É irresistível

Os gatos na poesia lusófona

São mais do que eu pensava os poetas de língua portuguesa que dedicaram parte das suas obras aos mais elegantes mamíferos à face da Terra. Nos próximos dias, um poema por dia, no total de seis.

A juventude, de Paolo Sorrentino

Este é um filme que prima sobretudo pela sua beleza. A história é muito simples: um compositor reformado (Michael Caine) retira-se durante uns meses para uma estância de spa suíça, onde também se encontra o seu amigo de longa data Mick Boyle (Harvey Keitel), realizador ainda no ativo.

A juventude centra-se sobretudo em conversas entre os dois amigos (ocasionalmente com outras pessoas), um resignado à sua velhice, o outro ainda cheio de projetos. Falam do passado, de mulheres com quem privaram, dos filhos que tiveram, do que ainda pensam ou não fazer com a vida.

A fotografia é belíssima, as paisagens perfeitas, a música envolvente. No final, saímos da sala com uma sensação estranha, sem conclusões definidas mas com a certeza de termos visto algo muito belo.

A juventude foi considerado o melhor filme pela Academia Europeia do Cinema, em Berlim, que também premiou Sorrentino como melhor realizador e Michael Caine como melhor ator.

5 de janeiro de 2016

Soubesse eu disto quando passava as noites a matutar...

... e porque não apoio os outros

Vou referir-me apenas a alguns, aos que conheço melhor e que já ouvi falar e expor as suas «ideias».

Começo por Marcelo Rebelo de Sousa, é inevitável. Durante anos, falou, deu opiniões, fez previsões. Hoje, não lhe ouço uma ideia. É social-democrata apesar de não lhe ser conveniente encostar-se a tal, pisca o olho ao centro-esquerda mas não se compromete com nada. Marcelo preparou a sua candidatura durante meses, defendendo sempre que os candidatos só deveriam surgir após as legislativas, ganhando terreno enquanto os restantes se iam retraindo. Marcelo foi, durante anos, um entertainer. E não é disso que o país precisa.

Passo a Maria de Belém. Considero a sua candidatura deplorável. Fê-lo à revelia do seu partido, que foi onde cresceu e onde se lançou. Não lhe reconheço história, apesar de ter sido ministra mais do que uma vez e de passar mais de metade do tempo a falar de si própria. As propostas também não são muitas, e a sua atitude classista e elitista irrita-me bastante. No fundo, não a acho capaz.


Quanto a Marisa Matias, tenho dificuldade em perceber o que ali está a fazer. Pelo que sei, no Parlamento Europeu tem feito um bom trabalho, mas quando confrontada com as competências de um presidente da República comporta-se como se de umas legislativas se tratassem. Diz que não promulgaria um orçamento retificativo como o que acaba de ser aprovado, mas não é capaz de dizer o que faria. Limita-se a dizer que não, sem explicar quais as condições para dizer um sim.

Acabo com Henrique Neto, que confesso só ter conhecido melhor agora. Neto surpreendeu-me nos debates a que assisti, quando me apercebi de que não passa de uma pessoa mesquinha, cuja campanha se vai centrar no ataque sem defender uma única ideia. Neto é muito cheio de si próprio, precisamente o oposto do que um presidente deve ser. 

Porque apoio Sampaio da Nóvoa...


Admiro este candidato ainda antes de ele o ser. Mais propriamente, desde 2013, quando ou ouvi a discursar e pensei: uma pessoa assim é que devia representar o país. Tenho seguido de perto a sua campanha, sempre com uma mensagem de esperança, de aposta nas pessoas, na educação como base de tudo.

Nóvoa tem a qualidade básica que acho que qualquer presidente (ou melhor, qualquer pessoa) deve ter: é um humanista. Em muitas ocasiões, vejo-o acusado de não ter experiência «política». Mas o que é isso de experiência política? Fazer joguinhos de bastidores? Passar de uma jota para uma carreira política sem outra experiência de vida? O percurso de Nóvoa é um espelho do que a política verdadeira deve ser: saber conciliar vontades, pôr o cidadão acima de todas as coisas. 

É num presidente-cidadão que acredito. Num que é um de nós. Acredito em Sampaio da Nóvoa. 

4 de janeiro de 2016

Um bocadinho de humor para quebrar o azedume desta tarde

Caos na Baixa na passagem de ano

O que eu mais desejava nas primeiras horas de 2016.
Tentei entrar em 2016 com o pé direito, apesar de as primeiras horas no novo ano terem sido duras. Ao contrário dos últimos anos, em que passei a meia-noite em casa de alguém, desta vez fui ao Terreiro do Paço para ver o fogo de artifício. Metade da cidade deve ter tido a mesma ideia. Foi bem apertadinha que assisti ao espetáculo no céu (não olhar para cima estava fora de questão, pois se olhasse para os lados mais não veria do que milhares de pessoas). Até aqui muita confusão mas apesar de tudo suportável. O pior foi quando quis regressar para casa, quando os únicos transportes «disponíveis» eram táxis.

Comecei a odisseia pela 1h20, na rua do Crucifixo. Aí tentámos chamar um táxi, mas todas as linhas estavam impedidas. Mau prenúncio. Decidi pôr-me ao caminho até encontrar um. Fui até ao Rossio, segui para os Restauradores, subi a avenida Liberdade. Gente bêbeda, ambulâncias e zaragatas vi muitas. Táxis, zero. Ou melhor, havia muitos, mas todos ocupados.

Segui para o Saldanha, onde o cenário era o mesmo mas com menos cenas decadentes. Pelas ruas, centenas de pessoas a tentar o mesmo que eu, famílias com crianças ou com pessoas mais idosas. No Saldanha, numa praça de táxis que se manteria vazia pela noite fora, um miúdo queixava-se à mãe que não queria dormir na rua.

Pelas 3h continuava a caminhar, desta vez na direção da avenida Almirante Reis, onde esperava ter mais sorte. Decidi que, ao lá chegar, perderia o amor ao dinheiro e pagaria €50 ou €60 por um Uber, que em alturas como estas adequa os preços à procura. Quando vi uma luz verde no tejadilho de um táxi não queria acreditar. Um rapaz novo levou-me a casa, onde cheguei às 3h30. Pediu-me €10, dei-lhe €15 porque naquela altura achei que me tinha salvado a vida.

Aprendi uma lição: passagens de ano na rua com tanta gente nunca mais.

Mas não posso deixar de apontar o dedo à falta de organização daquela noite. Não sei a quem imputar diretamente as culpas, mas acho vergonhoso o metro ter fechado mais cedo numa noite assim. Não só não deveria ter fechado como deveria ter estado aberto a noite toda, como se fez no Porto e na maioria das capitais europeias. Repito o que escrevi há umas semanas: como querem que os cidadãos utilizem os transportes públicos se estes não prestam sequer os serviços mínimos?

Pode ser, pode?

Depois de cinco dias sem trabalhar, isto hoje vai custar, ai vai, vai...

29 de dezembro de 2015

Desafio para os próximos dias


Dou o pontapé de partida. A minha palavra de 2015 é DECISÕES.

O sucesso também é feito de fracassos






Quem está comigo contra este tempo?

Sim, ontem choveu, mas nem por isso ficou mais fresco. Noites a transpirar por «já» ter mudado para o edredon de inverno, pôr um pijama (de verão) para lavar de dois em dois dias, vestir de manhã manga comprida e pela hora de almoço já estar arrependida de o ter feito, ser picada por melgas fora de época...

Sim, eu gosto do inverno, de frio e de chuva, por isso com estas temperaturas sofro ainda mais do que é costume.