27 de janeiro de 2016

Vamos lá espreitar

Alguma vez se interrogaram acerca de como será a casa dos vossos vizinhos de cima ou de baixo? Eu já, muitas vezes, porque gosto de ver casas em geral e porque tenho especial curiosidade em ver como outras pessoas arrumaram e decoraram um espaço igual ao meu.

O fotógrafo romeno Bogdan Girbovan pensa como eu, por isso conseguiu visitar as casas dos vizinhos em Bucareste e fotografou as casas dos moradores de um prédio de 10 andares. Ei-las:

Piso 1


Piso 2


Piso 3


Piso 4


Piso 5


Piso 6


Piso 7


Piso 8


Piso 9


Piso 10

26 de janeiro de 2016

Uma boa ideia que vale a pena adotar

Afinal, é só ter um cartãozinho na carteira e ficamos mais descansados. Não custa nada.

Ainda hoje gosto!

Purity, de Joanthan Franzen

Para comprar este livro com
10% de desconto,
clicar aqui.
Há uns anos, tive na mão Liberdade, de Jonathan Franzen, mas acabei por não o comprar. Já se falava no escritor como uma revelação, depois do seu primeiro sucesso em 2001, com Correções, mas não sei porque o deixei de lado.

Desta vez, o livro foi-me oferecido, e como tal quis arriscar. São quase 700 páginas que me levaram umas 3 semanas a ler, mas que valeram a pena. A história é bastante intrincada para a conseguir resumir, mas tentarei.

Purity, de diminutivo Pip, é uma rapariga norte-americana de 23 anos que trabalha num call center e cuja única família é a mãe, de quem vive longe. Não sabe quem é o pai e sabe que a identidade da mãe não é verdadeira, mas pouco mais. Pip vive numa casa de ocupas e um dia conhece uma alemã, Annagret, que lhe fala do Projeto Luz Solar, um grupo de jornalismo de investigação (ao estilo de Assange e Snowden) liderado pelo misterioso Andreas Wolf.

Pip acaba por ir trabalhar para o projeto, na Bolívia, na esperança de descobrir algo sobre o pai. Mas acaba por desistir e ir trabalhar para o jornal Denver Independent. E é aqui que a história se começa a desenrolar, levando-nos à Alemanha de Leste da Guerra Fria, à revelação de um assassínio e à descoberta, esforçada, de quem é o pai de Pip.

É um grande livro, intrincado, sim, mas que vale a pena ler. Narrada sob várias perspetivas, a história joga com várias identidades, acabando em grande coerência. Um dia destes pego nos outros livros de Franzen.

25 de janeiro de 2016

Cavaco Silva colocou a cereja no topo do bolo

Por isso, para terminar o seu mandato em beleza, acaba de vetar o diploma que previa a adoção de crianças por casais do mesmo sexo. Diploma esse aprovado na Assembleia da República por maioria de votos do PS, BE, PCE, PEV e pela deputada do PSD Paula Teixeira da Cruz. Que, sublinhe-se, foi alvo de um processo disciplinar por parte do seu partido por não ter respeitado a disciplina de voto.

Falta pouco mais de um mês para esta múmia retrógrada sair de vez das nossas vidas, não sem antes deixar mais uma mossa, e das grandes. Cavaco não sabe o que é uma criança a viver numa instituição. Não sabe o que é uma criança a viver com pais alcoólicos ou toxicodependentes. Não sabe o que é uma criança a viver vítima de violência ou de pedofilia intrafamiliar. Porque se soubesse não as deixaria viver assim, e equacionaria se não seria melhor viverem em paz no seio de uma família homossexual, com dois pais ou duas mães que as amariam incondicionalmente.

Estou enojada com mais este gesto, estou enojada com os comentários que li, e estou enojada com o modo como se processam as adoções em Portugal. Porque sei que, mesmo que a lei passe (imprescindível num país de liberdade, igualdade e democracia), os casais homossexuais ficarão para trás na adoção, tal como ficam os candidatos singulares, em detrimento de famílias «normais» que muitas vezes acabam por devolver as crianças. Mas isto ficará para outro tópico.

Para já, fica o protesto. E a expectativa de, se um dia o diploma voltar ao presidente da República, aquele que o será, Marcelo Rebelo de Sousa, não o vete tal como declarou durante esta campanha. Será uma das suas primeiras provas de fogo.

Nojo de gente


Acho que pagava, a sério que pagava, para saber o que sente uma «pessoa» ao fazer uma coisa destas. Eu se a apanhasse dava-lhe um pontapé no rabo.

Vencedores e vencidos

Conhecidos os resultados das Presidenciais de ontem, e apesar de ter pena (muita) de não ver o meu candidato passar à segunda volta, concluo o seguinte:

Vencedores
- Marcelo Rebelo de Sousa. É incontestável, uma maioria absoluta revela que é o preferido dos portugueses. Resta-nos esperar que venha a ser de facto o que prometeu: um presidente de consensos. E que não caia no erro de continuar a ser o que tem sido durante a sua vida política: um intriguista nos bastidores. Vamos ter esperança.
- Sampaio da Nóvoa. É certo que não «chegou lá», mas um resultado na ordem dos 22 por cento por parte de alguém que há um ano era um perfeito desconhecido pela grande maioria dos portugueses não deixa de ser inédito. Deu-me esperança, e isso foi bom. Fui dormir tranquila depois de ouvir o seu discurso de fecho. Um senhor.
- Marisa Matias. Pouco conhecida, conseguiu com uma campanha muito afirmativa continuar a levar o Bloco de Esquerda para um lugar muito apetecível no espectro político português, ficando em terceiro lugar com mais de 10 por cento. O partido promete, e o Partido Comunista que se ponha a pau.
- Vitorino Silva, aka Tino de Rans. As sondagens davam-lhe um resultado muito baixo, e de facto os números provam-no, mas ficar em sexto lugar de dez com com cerca de 3 por cento de votos é um feito.

Vencidos
- Maria de Belém. Quanto a mim, é a grande derrotada da noite, fruto da forma como se candidatou e da má campanha que fez. Ainda por cima não tem bom perder. Uma ex-presidente do Partido Socialista e ex-ministra da Saúde ficar em quarto lugar, com apenas 4 por cento de votos, é uma vergonha e uma humilhação. Pessoal, a meu ver.
- Edgar Silva. Aqui, não posso dizer que a derrota tenha sido dele, mas antes do Partido Comunista, que o empurrou para a frente para ter um candidato à força. Era pouco conhecido, pouco aguerrido, ficou-se com pouco.

E depois há os restantes quatro (Paulo de Morais, Henrique Neto, Cândido Ferreira e Jorge Sequeira), que não classifico porque os seus resultados não me surpreenderam.

E agora os dados estão finalmente lançados, com governo e presidente fixados. Resta-nos esperar que os próximos anos sejam mais calmos do que os passados.

22 de janeiro de 2016

Je ne suis pas Charlie

Há coisas com que não se brinca, e nem a liberdade de imprensa pode justificar isto. A caricatura feita por Laurent Sourisseau a propósito dos abusos sexuais e assaltos na Alemanha, na passagem de ano:


A rainha Rania da Jordânia publicou nas redes sociais uma versão alternativa, do caricaturista Osama Hajjaj:

Terapia

Já venho um pouco tarde para falar desta série, mas penso que ainda poderão apanhar os primeiros episódios no site de Terapia. Passa todos os dias de 2.ª a 6.ª na RTP, por volta das 23h, e dura cerca de meia hora.

A ideia é simples e funciona muito bem. Um psicólogo, Mário, recebe um paciente por dia, paciente esse que se repete em cada dia da semana. O que significa que às segundas teremos sempre Laura, às terças Alex, às quartas Sofia, às quintas Jorge e Ana e às sextas Mário visita a sua própria terapeuta, Graça. Isto tudo a decorrer durante nove semanas.

Cada um é uma personagem tipo, de que não vou falar porque vale a mesma ver. Adianto apenas que o que se passa naquelas sessões retrata muito bem o que se passa em grande parte das consultas de psicoterapia que conheço (apesar de agora estar a ter uma experiência totalmente diferente). Virgílio Castelo retrata um psicólogo que revejo em muitos, que esmiúça tudo o que os pacientes dizem, que de tudo quer fazer interpretações. Não posso ainda deixar de falar da interpretação de Nuno Lopes, no papel de Alex, mais uma personagem que comprova a versatilidade do ator.

Cliquem na imagem abaixo para verem o trailer, que espero que abra o apetite para ver mais. É viciante.

Uma questão de ponto de vista

Os dias de chuva são o que quisermos fazer deles.

21 de janeiro de 2016

E por falar em filas de supermercado...

... também fico com os nervos em franja com aquelas pessoas que arrumam as compras muuuuiiiito calmamente, olham beeeeem devagar para o total da conta e, também muuuuiiiito calmamente, abrem a carteira para procurarem o cartão quando vão pagar. O que é que custa terem o pagamento mais à mão? Nada. Mas isso não interessa para nada. Aliás, as pessoas que vêm a seguir não interessam para nada. O mundo são eles.

Fico num estado de nervos

E não é só no supermercado, é em qualquer fila que apareça. Detesto, detesto, que se encostem a mim. Como se assim se despachassem mais cedo.

December, de Elizabeth H. Winthrop

Isabelle tem 11 anos, vive com os pais em Nova Iorque e... deixou de falar há nove meses. Aparentemente sem motivo, e na verdade porque começou a calar-se e já não consegue parar. A dedicação dos pais à filha é excecional, tentando tudo, dia após dia, para reverter a situação.

O pai inventa tarefas e brincadeiras para motivar a filha e ouvir-lhe uma palavra que seja. A mãe deixou de trabalhar para acompanhar Isabelle, levando-a de médico em médico, sempre sem sucesso, e tentando que a filha continue os seus estudos mesmo sem ir à escola.

Estamos em dezembro, muito perto do Natal, e os pais de Isabelle defrontam a terrível hipótese de a filha não voltar a ser aceite na escola se não falar até janeiro. Tudo se passa em poucos dias, e é no dia de Natal que, por influência de uma personagem pouco provável, a vida acaba por dar uma volta.

Chegamos ao fim a pensar no que se terá passado e como se terá passado. Mas concluímos que isso pouco interessa, porque o verdadeiramente importante é o amor entre pais e filha que consegue manter unida uma família em crise.

19 de janeiro de 2016

Não falho um dia

Sobre as formas de agradecimento

À parte a política e a campanha, muito interessante esta teoria sobre as formas de agradecimento. Num discurso da Sampaio da Nóvoa em 2014, no fecho de um encontro de professores no Brasil.

Little children, de Tom Perrotta

Este é um livro que retrata a rotina de mães e pais de uma pequena cidade norte-americana. As mães deixaram de trabalhar para cuidar dos filhos, falam apenas de crianças e frequentam os mesmos parques sempre com as mesmas companhias. Os pais trabalham e têm uma relação semidistante com os filhos e relativamente fria com as mulheres.

Mas há uma exceção: Todd, o pai que faz o papel de mãe e que se torna uma das personagens centrais da história. Todd é casado com uma mulher de sucesso, ciumenta da relação entre pai e filho, e acaba por se envolver com uma das outras mães, também ela crítica dos seus pares. Rebenta silenciosamente um escândalo, conhecido por muitos mas comentado por poucos, como se se pudesse alastrar.

Para aumentar a tensão na cidade, um ex-abusador de crianças é libertado da cadeia, instalando-se num bairro familiar. A indignação é grande, as perseguições também, e Todd vê-se preso entre a traição na relação com Sarah e a traição na amizade com Larry, ex-polícia a tentar fazer justiça pelas próprias mãos.

Parece um romance de cordel, mas acho que não perdi tempo a lê-lo. Antes identifiquei muito do vejo nos filmes norte-americanos sobre as vidas de tantas famílias em pequenas cidades. 

18 de janeiro de 2016

Os dois gatos, Bocage

Dois bichanos se encontraram
Sobre uma trapeira um dia:
(Creio que não foi no tempo
Da amorosa gritaria).
 
De um deles todo o conchego
Era dormir no borralho;
O outro em leito de senhora
Tinha mimoso agasalho.
 
Ao primeiro o dono humilde
Espinhas apenas dava;
Com esquisitos manjares
O segundo se engordava.
 
Miou, e lambeu-o aquele
Por o ver da sua casta;
Eis que o brutinho orgulhoso
De si com desdém o afasta.
 
Aguda unha vibrando
Lhe diz: «Gato vil e pobre,
Tens semelhante ousadia
Comigo, opulento, e nobre?
 
Cuidas que sou como tu?
Asneirão, quanto te enganas!
Entendes que me sustento
De espinhas, ou barbatanas?
 
Logro tudo o que desejo,
Dão-me de comer na mão;
Tu lazeras, e dormimos
Eu na cama, e tu no chão.
 
Poderás dizer-me a isto
Que nunca te conheci;
Mas para ver que não minto
Basta-me olhar para ti.»
 
«Ui! (responde-lhe o gatorro,
Mostrando um ar de estranheza)
És mais que eu? Que distinção
Pôs em nós a Natureza?
 
Tens mais valor? Eis aqui
A ocasião de o provar.»
«Nada (acode o cavalheiro)
Eu não costumo brigar.»
 
«Então (torna-lhe enfadado
O nosso vilão ruim)
Se tu não és mais valente,
Em que és sup'rior a mim?
 
Tu não mias?» - «Mio.» - «E sentes
Gosto em pilhar algum rato?»
«Sim.» - E o comes?» - «Oh! Se como!...»
«Logo não passas de um gato.
 
Abate, pois, esse orgulho,
Intratável criatura:
Não tens mais nobreza que eu;
O que tens é mais ventura.»

                                                              Bocage

Em regressão


Em vez de progredirmos, regredimos. Em dois dias seguidos, deparei com gente a atirar displicentemente lixo para o chão. Da primeira vez, ia a pé e cinicamente disse à rapariga que tinha deixado cair um copo. Ela sorriu, agradeceu e lá foi apanhá-lo. Da segunda vez ia de carro, e ainda buzinei para o homem do carro da frente depois de ele ter atirado algo pela janela, mas nem se apercebeu.

Nojo de gente.


E ao oitavo dia...

15 de janeiro de 2016

Ode ao gato, José Jorge Letria

Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.

                                                  José Jorge Letria, 1999

Sampaio da Nóvoa em abril de 2015

Hoje, 9 meses depois, acredito ainda mais neste candidato, pelo seu percurso de vida e pelo seu percurso a partir do momento em que fez estas declarações.


Sei que muita gente que segue este blogue não acredita neste candidato, e compreendo isso porque cada um tem uma perceção diferente do mundo. Eu tenha esta, e por isso bato-me por ela até ao dia da decisão de todos.

Segredos de Bowie. Tão bom!


14 de janeiro de 2016

Isto é para mim, já há mais de 15 anos

Poema do gato, António Gedeão

Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?

Sempre que pode
foge prá rua,
cheira o passeio
e volta pra trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.

Quando abro a porta corre pra mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.

Repito a festa,
vagarosamente.
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas.
e rosna.
Rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.

Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?


                                                              António Gedeão

O que é a depressão?

Porque atinge cerca de 7 por cento da população mundial, porque há uns meses passei por ela, ainda que de raspão, e porque ainda é vista por muita gente como uma mania, acho que vale a pena partilhar este pequeno filme.

A depressão surge de repente, vinda aparentemente sem se saber de onde, tira-nos a concentração, tira-nos a vontade de fazer tudo aquilo de que gostamos, tira-nos o apetite, tira-nos as mais pequenas alegrias. Mas tem tratamento, claro que tem. Só que é preciso estar atento aos sinais e não os ignorar. Quanto mais precoce a intervenção, melhor. E há muita gente que pode ajudar.

13 de janeiro de 2016

O gato, Vinicius de Morais

Com um lindo salto
Lesto e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão
E pega corre
Bem de mansinho
Atrás de um pobre
De um passarinho
Súbito, para
Como assombrado
Depois dispara
Pula de lado
E quando tudo
Se lhe fatiga
Toma o seu banho
Passando a língua
Pela barriga

                                                   Vinicius de Moraes

Capaz

Acho que estes três senhores não estão enganados.




Eu não tenho dúvidas.

The grownup, de Gillian Flynn

Esta é a autora de Gone girl (o thriller com Ben Affleck e Rosamund Pike) e de Dark places (a estrear, com Charlize Theron), por isso era inevitável gostar. É apenas um conto, que se lê em duas horas, mas que cumpre na perfeição todos os pressupostos dos livros de Flynn: suspense, mentes tortuosas, dúvida até ao fim.

A história é simples, a de uma mulher que vive de um negócio que mistura sexo com misticismo. Um dia, é consultada por uma mulher em pânico devido à casa para onde se mudou e ao comportamento sinistro e ameaçador enteado. Ao começar a frequentar a casa para a «limpar», a charlatã começa, sem querer, a sentir medo também. Mas o sobrenatural não anda mesmo por ali.

11 de janeiro de 2016

O recado que Bowie nos deixou

Agora, que as horas do dia foram passando, já consigo escrever mais qualquer coisa. Confesso que hoje chorei, mais do que uma vez. Mas agora tenho a certeza de que Bowie é mesmo como eu pensava: imortal.

E genial, até mesmo na sua morte, que transformou numa obra de arte tal como foi a sua vida. Aqui fica o recado que nos deixou na passada 6.ª feira, para que também fiquemos em paz e saibamos que agora está livre.


Lazarus

Look up here, I’m in heaven
I’ve got scars that can’t be seen
I’ve got drama, can’t be stolen
Everybody knows me now

Look up here, man, I’m in danger
I’ve got nothing left to lose
I’m so high it makes my brain whirl
Dropped my cell phone down below

Ain’t that just like me

By the time I got to New York
I was living like a king
Then I used up all my money
I was looking for your ass

This way or no way
You know, I’ll be free
Just like that bluebird
Now ain’t that just like me

Oh I’ll be free
Just like that bluebird
Oh I’ll be free
Ain’t that just like me 

Sem palavras, recorro às já ditas

É também para isto que serve um blogue. Para ser um repositório de recordações a que podemos recorrer quando já nada conseguimos dizer. Felizmente, de Bowie tenho muitas:

- Algumas das minhas músicas de referência, em abril de 2008
- A nomeação de Heroes como uma das 100 músicas dos últimos 60 anos, em junho de 2012
- O dia em que fez 66 anos, em janeiro de 2013
- 12 páginas no Blitz, em fevereiro de 2013
- A minha decisão de ir à exposição no Victoria & Albert Museum, em fevereiro de 2013
- The next day em número no top de vendas do Reino Unido, em março de 2013
- Bowie com 10 meses, em março de 2013
- O videoclipe controverso de The next day, em maio de 2013
- A minha ida à exposição no Victoria & Albert Museum, em maio de 2013
- A versão de Sound and vision para o anúncio do Sony Xperia Z, em outubro de 2013
- O anúncio para a Louis Vuitton, em novembro de 2013
- O filme para a Louis Vuitton, em novembro de 2013
- O videoclipe de I'd rather be high, mostrando que pode haver alegria na tristeza, em dezembro de 2013
- A nomeação como Most stylish briton in History pela BBC, em dezembro de 2013
- O dia em que fez 67 anos, em janeiro de 2014
- O prémio British Male Solo Artist nos Brit Awards 2014, em fevereiro de 2014
- Os 75 livros da vida de Bowie, em março de 2014
- As respostas ao questionário de Proust, em outubro de 2014
- O dia em que fez 68 anos, em janeiro de 2015
- Os penteados que teve, em janeiro de 2015
- Os passos de Let's dance, em julho de 2015
- O anúncio de Blackstar, em dezembro de 2015
- O dia em que fez 69 anos, em janeiro de 2016
- E o dia que eu não queria que existisse, em janeiro de 2016

Estrela negra (1947-2016)


O mundo ficou muito mais pobre e eu não sei o que dizer. Nem consigo expressar o que sinto. Pode parecer estranho, mas parece que me falta um bocado. Bowie era uma das minhas grandes referências, a maior a nível musical e de modernismo.

Morreu ontem, depois de uma luta silenciosa de 18 meses contra um cancro. Guardou o segredo até ao fim, e até nisto Bowie foi diferente.

Fez 69 anos na sexta-feira, dia em que também lançou o seu 25.º álbum, Blackstar. Estrela negra. Uma das minhas estrelas.

8 de janeiro de 2016

Gato que brincas na rua, Fernando Pessoa

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

                                                  Fernando Pessoa, 1931

Parabéns, Mr. Bowie!

69 anos e o 25.º álbum para comemorar. Imparável, este senhor, sempre capaz de se adaptar e de lançar novas tendências.

A rapariga dinamarquesa, de Tom Hooper


Excelente escolha para primeiro filme do ano. Passado em Copenhaga e em Paris nos anos 20 do século passado, retrata, resumidamente, a nível físico e emocional, o primeiro processo conhecido de mudança de sexo da História.

Einar e Gerda Wegener são um casal de pintores que vivem aparentemente felizes, apesar de sem filhos, num constante processo criativo. Até que um dia, perante a falta de uma modelo para pintar um quadro, Gerda pede ao marido que se vista de mulher para poder terminar a sua obra. E é aí que se dá o clique, e que Einar começa a consolidar a sua desadequação ao corpo de homem com que nasceu. 

É um filme dramático que retrata uma história verídica, a transformação de Einar Wegener em Lili Elbe. Terrível o confronto interior de Einar, incapaz de conciliar o seu corpo com a sua mente. Mais terrível ainda o apoio que Gerda dá ao marido em todo o processo, com uma dedicação e abnegação inigualáveis. Eddie Redmayne está excelente, mas Alicia Vikander ainda mais. Tenho a certeza de que será um forte candidato aos Óscares.

7 de janeiro de 2016

Para que saibam sempre com o que contam

Gato, Alexandre O'Neill

Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pêlo, frio no olhar!

De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?

                                                              Alexandre O'Neill

As leituras de 2015

O ano de 2015 não foi um ano muito produtivo em termos de quantidade de leituras, comparando com o ano anterior. Mas não perdeu em qualidade. Foram poucos os livros que podia não ter lido.

Esta é a lista de 2015, apesar de tudo extensa comparando com a de 2016, que se adivinha quase de certeza mais curta:

- Contos reunidos, de Aldous Huxley
- Machu Picchu, de Tony Bellotto
- A grande arte, de Rubem Fonseca
- A arte cavalheiresca do arqueiro zen, de Eugen Herrigel
- A dama do lago, de Raymond Chandler
- Montedor, de Rentes de Carvalho
- O miniaturista, de Jessie Burton
- A small fortune, de Rosie Dastgir
- As dez mulheres do industrial Rauno Ramekorpi, de Arto Paasilinna
- Dress you family in corduroy and denim, de David Sedaris
- A mulher de verde, de Arnaldur Indridason
- O bom alemão, de José Manuel Saraiva
- A casa vermelha, de Mark Haddon
- O mistério do lago, de Arnaldur Indridason
- A man called Ove, de Fredrik Backman
- The children act, de Ian McEwan
- Conhecereis a nossa velocidade!, de Dave Eggers
- A rapariga no comboio, de Paula Hawkins
- Gosto disto aqui, de Kingsley Amis
- Na urgência, de Joana Bénard da Costa
- O pintassilgo, de Donna Tartt
- Malditos - Histórias de homens e de lobos, de Ricardo J. R. Rodrigues
- Summerhouse with swimming pool, de Herman Koch
- Número zero, de Umberto Eco
- Submissão, de Michel Houellebecq
- Her, de Harriet Lane
- A porteira, a madame e outras histórias de portugueses em França, de Joana Carvalho Fernandes
- Family life, de Akhil Sharma
- As gémeas do gelo, de S. K. Tremayne
- Your fathers, where are they? And the prophets, do they live forever?, de Dave Eggers
- A rapariga apanhada na teia de aranha, de David Lagercrantz
- A lição de anatomia, de Philip Roth
- Em teu ventre, de José Luís Peixoto

6 de janeiro de 2016

É irresistível

Os gatos na poesia lusófona

São mais do que eu pensava os poetas de língua portuguesa que dedicaram parte das suas obras aos mais elegantes mamíferos à face da Terra. Nos próximos dias, um poema por dia, no total de seis.

A juventude, de Paolo Sorrentino

Este é um filme que prima sobretudo pela sua beleza. A história é muito simples: um compositor reformado (Michael Caine) retira-se durante uns meses para uma estância de spa suíça, onde também se encontra o seu amigo de longa data Mick Boyle (Harvey Keitel), realizador ainda no ativo.

A juventude centra-se sobretudo em conversas entre os dois amigos (ocasionalmente com outras pessoas), um resignado à sua velhice, o outro ainda cheio de projetos. Falam do passado, de mulheres com quem privaram, dos filhos que tiveram, do que ainda pensam ou não fazer com a vida.

A fotografia é belíssima, as paisagens perfeitas, a música envolvente. No final, saímos da sala com uma sensação estranha, sem conclusões definidas mas com a certeza de termos visto algo muito belo.

A juventude foi considerado o melhor filme pela Academia Europeia do Cinema, em Berlim, que também premiou Sorrentino como melhor realizador e Michael Caine como melhor ator.

5 de janeiro de 2016

Soubesse eu disto quando passava as noites a matutar...

... e porque não apoio os outros

Vou referir-me apenas a alguns, aos que conheço melhor e que já ouvi falar e expor as suas «ideias».

Começo por Marcelo Rebelo de Sousa, é inevitável. Durante anos, falou, deu opiniões, fez previsões. Hoje, não lhe ouço uma ideia. É social-democrata apesar de não lhe ser conveniente encostar-se a tal, pisca o olho ao centro-esquerda mas não se compromete com nada. Marcelo preparou a sua candidatura durante meses, defendendo sempre que os candidatos só deveriam surgir após as legislativas, ganhando terreno enquanto os restantes se iam retraindo. Marcelo foi, durante anos, um entertainer. E não é disso que o país precisa.

Passo a Maria de Belém. Considero a sua candidatura deplorável. Fê-lo à revelia do seu partido, que foi onde cresceu e onde se lançou. Não lhe reconheço história, apesar de ter sido ministra mais do que uma vez e de passar mais de metade do tempo a falar de si própria. As propostas também não são muitas, e a sua atitude classista e elitista irrita-me bastante. No fundo, não a acho capaz.


Quanto a Marisa Matias, tenho dificuldade em perceber o que ali está a fazer. Pelo que sei, no Parlamento Europeu tem feito um bom trabalho, mas quando confrontada com as competências de um presidente da República comporta-se como se de umas legislativas se tratassem. Diz que não promulgaria um orçamento retificativo como o que acaba de ser aprovado, mas não é capaz de dizer o que faria. Limita-se a dizer que não, sem explicar quais as condições para dizer um sim.

Acabo com Henrique Neto, que confesso só ter conhecido melhor agora. Neto surpreendeu-me nos debates a que assisti, quando me apercebi de que não passa de uma pessoa mesquinha, cuja campanha se vai centrar no ataque sem defender uma única ideia. Neto é muito cheio de si próprio, precisamente o oposto do que um presidente deve ser. 

Porque apoio Sampaio da Nóvoa...


Admiro este candidato ainda antes de ele o ser. Mais propriamente, desde 2013, quando ou ouvi a discursar e pensei: uma pessoa assim é que devia representar o país. Tenho seguido de perto a sua campanha, sempre com uma mensagem de esperança, de aposta nas pessoas, na educação como base de tudo.

Nóvoa tem a qualidade básica que acho que qualquer presidente (ou melhor, qualquer pessoa) deve ter: é um humanista. Em muitas ocasiões, vejo-o acusado de não ter experiência «política». Mas o que é isso de experiência política? Fazer joguinhos de bastidores? Passar de uma jota para uma carreira política sem outra experiência de vida? O percurso de Nóvoa é um espelho do que a política verdadeira deve ser: saber conciliar vontades, pôr o cidadão acima de todas as coisas. 

É num presidente-cidadão que acredito. Num que é um de nós. Acredito em Sampaio da Nóvoa. 

4 de janeiro de 2016

Um bocadinho de humor para quebrar o azedume desta tarde

Caos na Baixa na passagem de ano

O que eu mais desejava nas primeiras horas de 2016.
Tentei entrar em 2016 com o pé direito, apesar de as primeiras horas no novo ano terem sido duras. Ao contrário dos últimos anos, em que passei a meia-noite em casa de alguém, desta vez fui ao Terreiro do Paço para ver o fogo de artifício. Metade da cidade deve ter tido a mesma ideia. Foi bem apertadinha que assisti ao espetáculo no céu (não olhar para cima estava fora de questão, pois se olhasse para os lados mais não veria do que milhares de pessoas). Até aqui muita confusão mas apesar de tudo suportável. O pior foi quando quis regressar para casa, quando os únicos transportes «disponíveis» eram táxis.

Comecei a odisseia pela 1h20, na rua do Crucifixo. Aí tentámos chamar um táxi, mas todas as linhas estavam impedidas. Mau prenúncio. Decidi pôr-me ao caminho até encontrar um. Fui até ao Rossio, segui para os Restauradores, subi a avenida Liberdade. Gente bêbeda, ambulâncias e zaragatas vi muitas. Táxis, zero. Ou melhor, havia muitos, mas todos ocupados.

Segui para o Saldanha, onde o cenário era o mesmo mas com menos cenas decadentes. Pelas ruas, centenas de pessoas a tentar o mesmo que eu, famílias com crianças ou com pessoas mais idosas. No Saldanha, numa praça de táxis que se manteria vazia pela noite fora, um miúdo queixava-se à mãe que não queria dormir na rua.

Pelas 3h continuava a caminhar, desta vez na direção da avenida Almirante Reis, onde esperava ter mais sorte. Decidi que, ao lá chegar, perderia o amor ao dinheiro e pagaria €50 ou €60 por um Uber, que em alturas como estas adequa os preços à procura. Quando vi uma luz verde no tejadilho de um táxi não queria acreditar. Um rapaz novo levou-me a casa, onde cheguei às 3h30. Pediu-me €10, dei-lhe €15 porque naquela altura achei que me tinha salvado a vida.

Aprendi uma lição: passagens de ano na rua com tanta gente nunca mais.

Mas não posso deixar de apontar o dedo à falta de organização daquela noite. Não sei a quem imputar diretamente as culpas, mas acho vergonhoso o metro ter fechado mais cedo numa noite assim. Não só não deveria ter fechado como deveria ter estado aberto a noite toda, como se fez no Porto e na maioria das capitais europeias. Repito o que escrevi há umas semanas: como querem que os cidadãos utilizem os transportes públicos se estes não prestam sequer os serviços mínimos?

Pode ser, pode?

Depois de cinco dias sem trabalhar, isto hoje vai custar, ai vai, vai...