28 de junho de 2017

A loja dos suicídios, de Jean Teulé

Comprei este livro na Feira do Livro como uma comédia, mas não lhe achei assim tanta piada. Mas também não o achei macabro. Achei-o assim algo sem sal.

A família Tuvache tem uma longa tradição nos métodos suicidas, ao ponto de terem uma loja onde vendem todos os acessórios necessários para o cometer: cordas com laços de forca, armas de fogo, armas brancas, todo o tipo de venenos. E eles próprios, pai, mãe e filhos, são pessoas naturalmente tristes e soturnas, que só não se suicidam porque têm um negócio de suicídios para gerir.

Até que nasce o filho mais novo, Alan, uma criança alegre desde bebé que vem trazer gargalhadas a um mundo pautado pelo culto da infelicidade. Os pais chegam a lamentar tê-lo tido (concebido com um preservativo furado que vendem para transmissão de doenças venéreas), pois estraga-lhes a família e estraga-lhes o negócio. Só que Alan não desiste e consegue contagiar o que o rodeia.

Assim contada, a história parece interessante, mas a verdade é que não gostei do livro. Existe também o filme de animação, de 2012, que pelas críticas que li parece bom. A ver assim que puder para testar se o problema sou eu se é o livro.

20 de junho de 2017

Guardas de passagem de nível, de Carlos Cipriano

Os Retratos da Fundação são sempre uma coleção em que aprendo algumas coisas. Para quem não conhece, são uma espécie de grandes reportagens em forma de livro e a um preço baixo (entre os €2,50 e os €3,50).

Este foi escrito pelo descendente de uma família de ferroviários, portanto por quem está bem dentro do assunto. E foca um dos postos mais baixos da carreira ligada aos comboios: as guardas de passagem de nível (sim, a enorme maioria são - ou, melhor, eram - mulheres), aquelas senhoras que fecham e abrem as cancelas antes e depois de os comboios passarem quando não há passagens desniveladas.

São retratadas talvez umas dezenas de mulheres, quase todas com cinquenta e muitos anos e das poucas profissionais que ainda restam em Portugal. Algumas ainda residem nas casetas, o nome que se dá às casinhas minúsculas de onde as vemos sair. Outras deslocam-se todos os dias para os seus postos. E outras, ainda, vão atrás dos seus postos. Como aquela que entra no comboio numa estação, sai noutra estação e vai rapidamente fechar a cancela umas centenas mais à frente na linha antes de o comboio que a trouxe passar, para depois a abrir e fazer o mesmo no comboio da volta. Ou outra, na linha do Vouga, que sai do comboio antes da passagem de nível, quando este abranda, faz o seu serviço e volta a entrar na composição uns metros depois.

Dei por mim com nostalgia da adolescência, quando tinha de passar por uma passagem de nível com guarda onde as pessoas se irritavam quando esperavam muito. Mal sabiam que provavelmente aquela espera lhes estava a salvar a vida. São vestígios de um mundo que vale a pena espreitar.

Nota: Podem ler sobre mais alguns destes livros aqui (Malditos - Histórias de homens e de lobos), aqui (A porteira, a madame e outras histórias de portugueses em França), aqui (Prematuros) e aqui (Na urgência).

18 de junho de 2017

Impossível não sofrer por eles

Mais de 60 pessoas como nós que devem ter tido uma das mortes mais horríveis possível. Aquela que não consigo imaginar, porque implica um grande sofrimento precedente. Temos mesmo todos de estar de luto.



13 de junho de 2017

Escrito na água, de Paula Hawkins

Depois de A rapariga na comboio, que me prendeu no livro e também no filme (coisa rara ambas as coisas me agradarem), mal pude comprei este Escrito na água (Into the water, a versão que comprei por ser metade do preço).

Numa pequena cidade britânica, uma zona do rio que a atravessa foi já palco ao longo de séculos de vários afogamentos de mulheres, uns voluntários outros não. Nel estuda o rio e os seus casos, até que um dia ela própria aparece morta nas suas águas. Dias antes, tinha deixado uma mensagem de pedido de ajuda no gravador de mensagens da sua irmã Jules. Uma contradição, portanto, uma vez que tudo aponta para o suicídio sem que no entanto algumas coisas batam certo. Vai ser preciso regressar ao passado recente e longínquo para se descobrir o que aconteceu.

Se gostei do livro? Nem por isso. Achei-o aborrecido, com um ritmo lento, e com excesso de narradores assim não tão surpreendentes. Deu-me ideia de que Paula Hawkins foi quase forçada a escrever algo para dar continuidade ao êxito do livro anterior. Julgo que esteja a vender bem, mas a mim não me convenceu.

9 de junho de 2017

Balanço das minhas duas idas à Feira



O que vale é que a terceira ida será com as miúdas, portanto sem grande mobilidade para me perder de novo.

6 de junho de 2017

O estrangeiro, de Albert Camus

Depois de ler A peste, tinha de continuar a ler Albert Camus. O seguinte foi O estrangeiro e o próximo será A queda.

Este «estrangeiro» é Mersault, uma personagem que parece vazia de sentimentos. Encara a morte da mãe como algo leve, e o seu prévio internamento numa casa de repouso como algo que lhe faria bem a ela. Encara um possível casamento com a amante esporádica como algo que tanto lhe faz, que tanto podia ser com ela como com qualquer outra pessoa. E encara o crime que comete como outro ato qualquer. crime esse, aliás, que pratica sem grande motivo aparente.

No julgamento que se segue, onde quase se condena mais a atitude leviana perante a morte da mãe do que o assassínio que cometeu, Mersault não mostra sentimentos de culpa, revelando-se como um estrangeiro entre os restantes seres humanos. Pessoa estranha, este Mersault. Descrito, no entanto, numa escrita limpa, como eu gosto.