8 de junho de 2020

O adeus à chucha

Tinha sido combinado para o dia dos 4 anos, mas foi 3 dias depois. 6 de junho de 2020 foi o dia em que as minhas filhas deixaram de usar chucha de noite. Custou-lhes, mas acabaram por ceder em dá-las aos «bebés que precisam e não têm». As noites têm sido um pouco mais agitadas, mas hão de acalmar, e a verdade é que é a primeira novidade que dão sempre que se encontram com alguém. Lá no fundo, estão felizes!

4 anos! Com alguns dias de atraso...

Ando mesmo desnaturada... as miúdas já fizeram 4 anos há quase uma semana e só agora venho aqui dar notícias. Apesar do desconfinamento (ou por causa dele e como está ser feito), fizémos uma festa mesmo muito pequenina, só comigo, tios e avós.

A Maria e a Luísa andaram meses a pedir uma festa de anos, mas com algumas conversas ao longo do tempo foram compreendendo que teria de ser algo diferente devido ao vírus que já parecem conhecer tão bem. Assim, estiveram tão felizes e orgulhosas como se fosse uma festa grande.

Deixaram de ser bebés, já são umas verdadeiras meninas só com laivos de bebés de vez em quando.

29 de abril de 2020

News

Sei que algumas pessoas têm dado pela falta de atividade aqui no blogue, por isso quero dar-vos uma satisfação. O único e verdadeiro motivo é a difícil adaptação à realidade que vivemos e a consequente falta de inspiração.

Estou metade da semana em teletrabalho intenso e a outra metade e fim de semana com as miúdas a full, que não me permitem um minuto de desatenção. Estão a ser tempos difíceis.


Ficar em casa com crianças pequenas não é poder ler à vontade. Ver filmes e séries sempre que nos apetecer. Comer coisas boas feitas com calma. Organizar livros, roupa e tudo o que estava há meses à espera. Dormir boas sestas. Conversar com os amigos. Inventar memes giros e partilhá-los. Esticarmo-nos no sofá ao sabor da vontade. 
 
Ficar em casa com duas crianças quase a fazer 4 anos é uma realidade totalmente diferente. É levantarmo-nos e já ter a casa num caos. É não conseguirmos tomar banho até às 11h porque antes disso há que arrumar tudo e tratar delas. É ouvir chamar-nos centenas de vezes por dia. É controlar a própria frustração delas e o comportamento que se alterou e até regrediu. É ter de pensar e confecionar todas as refeições a horas. É gerir birras e conflitos. É tentar inventar todas as brincadeiras possíveis. É não conseguir ter uma conversa ao telemóvel porque pedem atenção permanente. É não ter um minuto de silêncio ou de sossego. É não conseguir ler, ver filmes ou mesmo ouvir a nossa música. 
 
Ficar em casa com crianças pequenas é o maior desafio à sanidade mental que já vivi. 
 
Ao fim do dia, só sobra energia para ver uma ou outra série de episódios curtos (recomendo Killing Eve, na HBO, e After life, na Netflix) e ler meia dúzia de páginas para manter o hábito da leitura, que nunca esteve em níveis tão baixos (li O corpo, de Bill Bryson, Cair para dentro, de Valério Romão, Conspiração contra a América, de Philip Roth, e A educação dos gafanhotos, de David Machado).

Coisas positivas que entretanto aconteceram com as Oliveirinhas: já chegaram ao metro de altura, já sabem afiar os lápis sozinhas e já aprenderam a andar de bicicleta (com rodinhas). Duvido que lhes tivesse ensinado as duas últimas se não estivesse mais tempo com elas.

Tentarei vir aqui mais amiúde.

31 de março de 2020

Tal mãe, tal filha

Há uns 42 anos:
A minha Mãe: Rita, vai ao quarto buscar uma fralda para eu mudar a Inês.
(Eu vou, e regresso com uma data delas.)
A minha Mãe: Querida, porque é que trouxeste tantas?
Eu: Para ficar já despachada.

Hoje, por telefone:
A Luísa (ao meio-dia): Quero vestir já o pijama.
Eu: Amor, mas para quê? Ainda é muito cedo.
A Luísa: para ficar já despachada.

18 de março de 2020

Adiar a vida

Adiamos idas ao médico.
Adiamos idas ao parque.
Adiamos passeios a pé ou de bicicleta.
Adiamos comemorações de aniversário.
Adiamos o conforto na morte.
Adiamos dias comemorativos.
Adiamos jantar com os amigos ou com a família.
Adiamos exames importantes.
Adiamos a ida para o trabalho.
Adiamos um café na esplanada.
Adiamos visitas aos idosos ou aos doentes.
Adiamos viagens marcadas há meses.
Adiamos uma dor de dentes.
Adiamos idas ao cinema, ao teatro ou a um concerto.
Adiamos conduzir só porque nos apetece.
Adiamos a aprendizagem nas escolas.
Adiamos intervenções cirúrgicas.
Adiamos ir dançar.
Adiamos prazos de tarefas.
Adiamos casamentos.
Adiamos reuniões.
Adiamos ver os nossos pais e avós.

E, sobretudo, adiamos beijos, abraços e carícias. Aquilo que mais nos humaniza.

Que isto passe depressa.

15 de março de 2020

A minha Babá faria hoje 96 anos


A minha Babá, Avó materna que nunca quis que lhe chamássemos avó mas que foi a melhor avó que se pode ter, nasceu a 15 de março de 1924 e deixou-nos a 30 de setembro de 1997, com apenas 73 anos.

Era uma pessoa rígida e simultaneamente afetuosa, muito ligada a nós mas pronta a libertar-nos se fosse para o nosso bem, culta e poliglota porque era tradutora mas ao mesmo tempo a adorar ver telenovelas e concursos de televisão.

Foi ela que me iniciou no inglês e no francês, e foi com ela e com o meu Avô que visitei os primeiros museus da minha vida.

Não se considerava bonita, mas eu acho que era muito. E adorava receber festinhas dela na cabeça quando víamos televisão. Todos os dias penso nela, e não tenho qualquer dúvida de que é um dos meus anjos da guarda.

11 de março de 2020

8 dicas para sermos melhores pais (e evitarmos conflitos desnecessários)

1. Distraí-los durante uma birra - focar a atenção para algo tão simples como a cor da roupa pode acabar com as lágrimas num ápice. Ainda não me tinha lembrado desta!


2. Não lhes dizer quanto tempo falta para terminar uma diversão - a noção de tempo ainda é muito abstrata, é preferível colocar limites com unidades contáveis. Faço sempre isto, até porque elas não fazem ideia do que seja um minuto.

  

3. Limpar primeiro a nossa cara, depois a deles - dar o exemplo é sempre a melhor estratégia. Vale também para outras coisas que não gostem de fazer, como lavar os dentes, por exemplo. Também ainda não me tinha lembrado disto. 

 

4. Dizer-lhes «obrigada» e «desculpa» - mais uma vez, dar o exemplo, até nas mais pequenas coisas e nas mais pequenas tarefas. Faço sempre isto, seja por arrumarem os brinquedos, apanharem uma coisa do chão ou por ter gritado com elas. 
 

5. Dar-lhes legumes e fruta antes da refeição - para o caso de serem avessos aos frescos, oferecer-lhos quando ainda estão com fome. Não o faço por não ser necessário. A fruta, adoram!


6. Fazer alternância de dias quando há vários filhos - argumentos como ser o mais novo ou o mais velho não são os mais justos. No meu caso, como são as duas da mesma idade, praticamos a alternância sempre, até para o dia em que cada uma escolhe a história para ouvir à noite.


7. Dar-lhes escolhas concretas - isto é, em vez de os deixar escolher totalmente à vontade, dar-lhes duas ou três hipóteses concretas. Eles ficam na mesma com a sensação de que escolhem, mas é uma escolha controlada. Lá em casa, por enquanto, estas escolhas só se fazem nos acessórios, pois no vestuário ainda sou uma ditadora.


8. Deixá-los verem-nos a «adormecer» - mandar para a cama quando estamos a ver televisão ou no telemóvel pode parecer-lhes um contrasenso. Ultimamente, tenho argumentado que me vou deitar logo a seguir, baixo as luzes e faço silêncio nos primeiros momentos*.

*E mais uma coisa de que falarei daqui a uns tempos. 


Nota: Ideias retiradas daqui.

10 de março de 2020

O coronavírus, pelo matemático Jorge Buescu


(Editado, com os meus cortes e acrescentos entre parênteses retos e a bold.)

«Evitei até hoje pronunciar-me sobre este assunto; mas chegados à situação actual, acho que  é uma questão de serviço cívico enquanto matemático.

Este gráfico [...], que consta de um site de Johns Hopkins que acompanha a situação do coronavirus em tempo real [...], compara o número de infecções por coronavírus na China (laranja) e resto do Mundo (amarelo) com os casos de recuperação. À data de hoje (1/3/2020) há 42.600 recuperados, de um total de 87.000 casos identificados. Devemos ficar preocupados? Não, pelo contrário. Devemos ficar muito tranquilizados. Note-se que a curva dos recuperados acompanha perfeitamente a das infecções, com um tempo de latência de 3-4 semanas. O número de recuperados hoje, 1/3/2020, é igual ao total de infectados em todo o Mundo em 10/2/2020. A taxa de recuperação para os casos de infecção registados em Fevereiro é superior a 99%.

Para ganhar sensibilidade para a evolução da doença, transcrevo os números em bruto. I é o número de infectados, R de recuperados.
22 Jan: I = 547, R=28
29 Jan: I = 7.700, R=133
5 Fev: I= 20.000, R= 1.100
12 Fev: I=50.200, R= 5.200
19 Fev: I=75.700, R= 16.100
26 Fev: I=81.000, R= 30.400
1 Mar: I=87.000, R=42.600
[10 Mar: I= 114.544, R=64.034]

Ou seja, em Janeiro quase não havia recuperados; hoje mais de metade do total de infectados já recuperou. Num mês, o número de recuperados cresceu por um factor de 300. Curiosamente, nunca vi estes números referidos na imprensa, mais preocupada com visões do apocalipse.

Estamos pois a braços de uma virose essencialmente inócua (mais pormenores abaixo), com um período de recuperação de 3-4 semanas, após o qual, de acordo com os melhores números actuais, 99,3% dos infectados recuperam sem complicações.

Do ponto de vista da saúde pública, a questão colocada pelo nCOVID-19 é apenas a sua elevadíssima taxa de contágio. A OMS estima um valor de R_0, grandeza que nos modelos matemáticos SIR (Susceptíveis-Infectados-Recuperados) determina a taxa de propagação exponencial, de 2,3. Para comparação, a gripe sazonal tem R_0=1.3, propagando-se de forma muito mais lenta. [...]

Por outro lado, os números mostram que se trata de uma virose essencialmente inócua: o período de recuperação é de 3-4 semanas, após o qual 99,3% dos infectados estão recuperados. A estimativa actual da OMS para a taxa de mortalidade para casos surgidos depois de 1 de Fevereiro, portanto depois do surto inicial, é actualmente de 0,7%. Esta é mais baixa do que a da gripe sazonal, que é de 1%. Como termo de comparação, o vírus Ébola tem uma taxa de mortalidade próxima dos 50%.

A virose em si não é complicada; um dos maiores virologistas espanhóis e Presidente da Sociedade Espanhola de Virologia, José Antonio Lopez Guerrero, descreve-o como “mais do que um catarro, menos do que uma gripe”. 80% dos casos são assintomáticos ou têm sintomas muito leves. Apenas em 5% dos casos existem complicações graves, na sua grande maioria em grupos de risco: por exemplo, pessoas com bronquites crónicas, DPOC ou sistema imunitário estruturalmente enfraquecido como doentes oncológicos. São essas pessoas que podem estar em perigo – tal como estariam, com o mesmo nível de risco, se contraíssem uma gripe comum.

O coronavírus já está em Portugal, isso é uma inevitabilidade cósmica. Isso é preocupante? Não particularmente, a menos que se pertença ou se esteja em contacto próximo com um grupo de risco. Como descrevi acima, ele é menos perigoso do que uma gripe. Mas, tal como alguém com uma gripe toma precauções para não a passar, também aqui essas precauções devem ser tomadas, de forma mais drástica divido à altíssima taxa de contágio. 

Se o coronavírus servir para implantar socialmente comportamentos como lavar mãos frequentemente ou não espirrar para o ar, tanto melhor. Podemos ter de cancelar algumas viagens de avião, como aconteceu comigo, mas vamos viver a vida normalmente. De resto, não há qualquer motivo para pânico ou sentimentos de apocalipse, apesar da desinformação constante e do alarmismo mediático a que assistimos diariamente – esse sim, o mais perigoso vírus de toda esta história.»