31 de janeiro de 2019

Cruzamento de Edward Hopper com Alfred Hitchcock

Gosto muito da pintura de Edward Hopper, da desolação, da solidão e da nostalgia que deixa transparecer, sobretudo nas personagens. Mas não conhecia este House by the railroad, de 1925, que acabou por servir de inspiração para a casa de Bates em Psycho.

Estamos sempre a descobrir coisas novas (esta foi em Cenas da vida americana, de Clara Ferreira Alves, que tenho estado a ler).

28 de janeiro de 2019

Green Book - Um guia para a vida, de Peter Farrelly

Comecei a minha saga de tentar ver o máximo de filmes nomeados para os Óscares. Por enquanto. poucos estão em cartaz e só vi dois: GreenBook - Um guia para a vida e Bohemian Rhapsody. O segundo já vi há uns tempos e falarei dele daqui a uns dias, o primeiro vi a semana passada e tem nomeações para melhor filme, melhor ator principal, melhor ator secundário, melhor argumento original e melhor montagem.

No início dos anos 60, o pianista negro Don Shirley (Mahershala Ali) precisa de um motorista que o leve numa digressão pelo Sul profundo dos EUA, onde o racismo estava mais do que instalado. Vai guiá-lo Tony «Lip» Vallelonga (Viggo Mortensen), ele próprio racista mas que por um bom ordenado se presta à tarefa durante dois meses.

Shirley é requintado, bem-falante e sempre impecavelmente vestido, um homem com classe e pose aristocrática mas ainda assim visto como um nigger pelos brancos e como um extraterrestre privilegiado pelos negros. Tony é um italo-americano, bronco, abrutalhado e rodeado de uma família barulhenta mas que o adora. Juntos, vão fazer uma longa viagem, apoiados pelo Green Book, um guia autêntico que na época listava os locais dos EUA que toleravam o alojamento e a frequência de negros.

A fórmula do filme não é nova, mas a narrativa, baseada em factos, está muito bem construída, conciliando o retrato de uma América racista mas pouco culta com algumas deixas verdadeiramente divertidas.

24 de janeiro de 2019

Pais à maneira dinamarquesa, de Jessica Alexander e Iben Sandahl

Não sou muito dada a livros de autoajuda nem a livros sobre parentalidade, com exceção dos de Mário Cordeiro. Mas este chamou-me a atenção, precisamente porque pouco tempo antes de o ver tinha estado em Copenhaga e observado a relação leve que os pais têm com os filhos.

Num país considerado um dos mais felizes do mundo, a maneira como os pais educam os filhos perpetua esta sensação de felicidade, apoiada em sentimentos de resiliência, confiança e pertença.

As autoras resumem os pilares da «maneira dinamarquesa» em seis pilares: PARENT (Play/brincar, Autenticidade, Reenquadramento, Empatia, Nada de ultimatos e Tempo juntos). 

Quanto a brincar, defende-se a primazia dada à brincadeira em detrimento de atividades estruturadas de ocupação dos tempos livres e ao entretenimento eletrónico. Brincadeira com os pais, com os amigos mas também sozinhas, de modo a fomentar a criatividade e a capacidade para ultrapassar o aborrecimento. No fundo, deixar as crianças em paz e não estar sempre em cima delas.

A autenticidade está ligada à honestidade, praticada e ensinada. Ensinar as crianças a serem honestas, contar-lhes diversos tipos de histórias e não apenas as que têm finais felizes, elogiá-las pela maneira como fazem as coisas e não por serem muito «inteligentes» ou «as melhores», não sermos demasiado assertivos com o que pensamos em assuntos sobre os quais as crianças podem formar a sua própria opinião.

Reenquadrar tem a ver com ver as coisas com outros olhos, de uma forma positiva realista, ser menos rápido a julgar e mais rápido a aceitar, não rotular os outros por uma ou outra ação que cometeram, pois as ações muitas vezes dependem do contexto e não de como se é.

A empatia deve ser demonstrada ao fazer as crianças compreenderem os outros, como quando são agredidas por um colega na escola não por ele «ser mau» mas porque havia outras variáveis envolvidas. Pode também ser construída lendo-lhes muito e um pouco de tudo e mostrando-nos vulneráveis, não escondendo as nossas próprias emoções.

Os ultimatos são de evitar. Fugir a sete pés das lutas de poder, do «é assim porque eu é que mando» ou «porque eu quero», substituir os gritos ou a punição física por orientação, identificar o que pode fazer as crianças explodir, explicar-lhes porque podem ou não fazer alguma coisa.

Por fim, o tempo juntos. Mas tem de ser tempo de qualidade, em que todos colaboram para isso, num lanche, numa tarde de jogo, num passeio ou piquenique com a família ou amigos.

Quando cheguei ao fim do livro, percebi que já ponho em prática algumas destas coisas, mas que ainda tenho um longo caminho para trilhar para que a Luísa e Maria sejam o mais felizes e confiantes possível. Recomendo esta «maneira dinamarquesa» de educar.

Nota: Podem explorar mais sobre este assunto em http://thedanishway.com/.

23 de janeiro de 2019

Um holograma para o rei, de Dave Eggers

Dave Eggers nunca me desiludiu. Porque consegue sempre transportar-me para outras vidas num fenómeno de imersão total.

Este livro tem algo de kafkiano, pois implica uma espera que dura praticamente o livro todo. Alan Clay tem a sua vida dependente de conseguir vender uma rede de Tecnologias da Informação à KAEC (King Abdullah Economic City), na Arábia Saudita. É uma cidade real, construída no meio do nada, que se pretende seja um paraíso na Terra, mas que Alan encontra ainda muito no início (e que ainda hoje é quase uma miragem).

Durante aquilo que nos parecem semanas, Alan e a sua equipa de três jovens informáticos aguardam por uma audiência com o rei para lhe apresentar a sua tecnologia inovadora. Numa tenda provisioriamente montada, no início sem wifi e insuportavelmente quente sem ar condicionado, esperam dias a fio, com saídas de Alan para tentar chegar ao contacto com alguém e para pernoitar num hotel em Jidá. Durante a espera, vai fazendo tentativas de escrever uma carta à filha, que se encontra em conflito com a mãe, e desenvolve uma amizade com Yousef, um jovem saudita que ganha a vida como motorista.

Um livro que nos exaspera pela espera e que por isso mesmo, por transmitir na perfeição esse sentimento, vale a pena ler.

17 de janeiro de 2019

10 bons motivos para ler


(Retirados do blogue literário da wookacontece.)

#1 – Aumenta a inteligência
Por mais abstrato que isto possa parecer, a verdade é que um livro continua a ser uma das mais importantes fontes de conhecimento (para além da educação e da genética). E quanto mais cedo se começa, maior será o desenvolvimento cognitivo. 
#2 – Reduz o stress e a ansiedade
Segundo o neuropsicólogo britânico David Lewis, bastam seis minutos a ler para que sejam observadas alterações significativas no corpo que contribuem para a redução do stress, inclusive, em níveis superiores comparativamente a ouvir música ou fazer uma caminhada. 
#3 – Aumenta o vocabulário
Ler de forma regular é uma espécie de fermento que adicionamos ao nosso léxico. Nenhuma outra atividade nos expõe tanto a palavras novas como a leitura. 
#4 – Retarda o envelhecimento do cérebro e diminui o risco de Alzheimer
A memória é uma das primeiras funções do cérebro a deteriorar-se com o tempo. Assim como outros músculos do corpo exigem exercícios, o cérebro também deve ser estimulado para se manter forte e saudável. Sempre que se abre um livro, ele é incitado a relembrar-se da página, da história, das personagens, da trama. Além disso, a cada nova memória criada, surgem novos fios condutores e fortalecem-se os existentes. 
#5 – Aumenta a criatividade
Quando somos expostos a diferentes histórias e diferentes pontos de vista isso reflete-se numa mente mais aberta e livre. A leitura ajuda-nos a ver o mundo de uma outra forma, a ter ideias originais e a encontrar soluções mais criativas. 
#6 – Melhora a concentração e o foco
No dia a dia, somos capazes (e/ou vemo-nos obrigados) a fazer inúmeras tarefas ao mesmo tempo. Quando lemos um livro isso não acontece: além de assumirmos um compromisso perante o livro, toda a nossa atenção está focada na narrativa, nas personagens e nos detalhes. A médio e longo prazo, isso repercute-se numa série de outras áreas da nossa vida. 
#7 – Melhora a perceção sobre o mundo
A História tem um papel fundamental naquilo que somos hoje. Quando lemos, apreendemos o passado e isso ajuda-nos a compreender o presente. Só uma pessoa plenamente informada será crítica o suficiente para encontrar soluções adequadas a problemas atuais. 
#8 – Melhora a qualidade do sono
Uma má noite de sono afeta a produtividade, o humor e a relação com os outros. É por isso que muitos especialistas defendem que devemos estabelecer uma rotina regular para acalmar a mente antes de dormir. Um livro é uma excelente opção, como vimos no ponto 2. 


#9 – Aumenta a empatia
Apesar de ser uma atividade solitária, quando lemos um livro tornamo-nos também parte dessa história e conseguimos até sentir as emoções das personagens. Por conseguinte, isto dá-nos a amplitude suficiente, para, «na vida real», compreendermos como diferentes coisas afetam diferentes pessoas. 
#10 – Não tem efeitos colaterais
Ao contrário de ver televisão, os livros são uma aposta segura. Nunca ninguém ficou cego por ler muitos livros e não se conhece, até hoje, nenhum perigo associado ao facto de se ler um bom livro. :) Além disso, é um hobbie barato e portátil.

15 de janeiro de 2019

A árvore da discórdia, de Hafsteinn Gunnar Sigurðsson

Depois de há uns tempos ter visto Ben está de volta, sobre o regresso a casa de um adolescente toxicodependente no dia de Natal, apetecia-me algo bem mais leve. Escolhi A árvore da discórdia, um filme islandês sobre dois casais de vizinhos que entram em conflito por causa de uma árvore que faz demasiada sombra na casa do lado.

Um dos casais está na casa dos 60 anos, com um filho desaparecido e outro, com uns 30 anos, que vive uma crise conjugal. O outro é um casal reconstruído, sem filhos mas a tentar ter um. Aquilo que começa por ser um pedido cortês para desbastar uma árvore cresce, em bola de neve, nema escalada de violência de proporções cada vez mais exageradas que acaba por degenerar em tragédia.

Assim, tendo ir ver uma comédia, fui na verdade ver uma comédia negra, com uma fotografia pálida, um ambiente bastante melancólico e com personagens fustigadas pela vida e muito amargas que não me deixaram nada bem disposta.

Atenção, o filme é bom, só não era o que eu precisava de ver. Para a próxima tenho de me precaver um pouco mais.

14 de janeiro de 2019

MAAT: Melhor por fora do que por dentro


Parece incrível, mas nunca tinha ido ao MAAT, nem sequer me tinha aproximado dele a pé. Como inaugurou em 2016, o ano de nascimento das minhas filhas, acabou por ir ficando para segundo plano quando tinha algum tempo livre. Este sábado, estando sem elas, fui dar uma espreitadela por fora e por dentro. Fui apenas ao edifício principal, pois à central elétrica já tinha ido várias vezes.

Por fora é de facto uma obra muito interessante, com o efeito de onda produzido por todo aquele revestimento brilhante em cerâmica e pela cobertura panorâmica e bem integrada na relação entre a cidade e o rio.

Por dentro, ou o defeito é meu ou a programação atual destina-se apenas a um nicho de visitantes. A exposição que está na sala oval é bastante curiosa, uma enorme onda de desperdício de plásticos encontrados no oceano, da autoria de Tadashi Kawamata. Já as restantes, de que não me recordo o nome, falam uma linguagem que a mim me pareceu de um mundo paralelo, em que nenhuma frase me fazia sentido com a seguinte e em que nenhuma obra me disse grande coisa.

Numa altura em que, pela Europa fora, um museu é um local onde se pode passar uma bela tarde ou um belo dia, tenho pena que este, pelo menos a mim, não o permita. Senti ainda a falta de uma cafetaria de onde se pudesse apreciar o rio e de uma maior ligação do interior com o exterior, com a luz que o Tejo irradia.

Em resumo, melhor por fora do que por dentro.

10 de janeiro de 2019

A musa, de Jessie Burton

Não pegaria neste livro se não fosse da mesma autora de O miniaturista, que adorei. Embora não tenha de todo um ambiente ao nível do outro, que se passava na Amesterdão mercantil do século XVII, a história é muito interessante, narrada em dois tempos e lugares: 1936, numa aldeia do sul de Espanha; 1967, em Londres.

Na Londres do final dos anos 60 surge à venda um quadro há muito julgado perdido, que tinha estado anos em casa da mãe do seu vendedor. Um suposto quadro do pintor Isaac Robles, alguém muito à frente do seu tempo e que tinha produzido poucas obras mas muito intrigantes antes de desaparecer ainda novo durante a Guerra Civil de Espanha. Trinta anos antes, em Arazuelo, o mesmo Isaac Robles e a sua irmã Teresa envolvem-se com uma família alemã ali refugiada, composta por um casal com uma filha apaixonada por arte.

Na busca pela autenticidade do quadro, muitos segredos vêm ao de cima, nomeadamente sobre a sua própria autoria.Um livro interessante e de leitura fluida, que nos leva por um caminho e depressa nos desvia para outro, sem nunca parecer forçado. Gostei bastante.

9 de janeiro de 2019

Eu bem tento fingir que o tempo não passa

A TT faz este ano 16 anos, na minha companhia toda a minha vida como uma pessoa independente. Está gordinha q.b., tem um pelo lindo, come e bebe bem. Mexe-se menos do que mexia, às vezes tem mais dificuldade em fazer cocó e tem mais frio. Mas, quando olho para ela, não me consigo mentalizar de que já são 16 anos. Quero muito que ainda nos restem alguns. Adoro esta minha menina.


PS: No dia 17 de março faz 1 ano que a Vespinha faleceu. Ainda hoje, refiro-me quase sempre «às gatas» quando quero falar só na TT...

4 de janeiro de 2019

Pequeno balanço de 2018

Em 2018, morreu-me a Vespinha Gata, tive a minha Mãe em estado muito crítico, descobri uma chatice num dos olhos, a casa da minha infância foi vendida apesar de por bons motivos. No meu círculo de amigos, houve mortes, separações, despedimentos. Coisas más.

Por outro lado, as minhas filhas continuaram a crescer saudáveis, a minha Mãe recuperou do susto e o meu exame anual à aorta estava normal. Coisas boas.

Em 2019 gostava de não pensar em recorrer à bruxa tantas vezes.

O meu ano de 2018 em livros