18 de janeiro de 2016

Os dois gatos, Bocage

Dois bichanos se encontraram
Sobre uma trapeira um dia:
(Creio que não foi no tempo
Da amorosa gritaria).
 
De um deles todo o conchego
Era dormir no borralho;
O outro em leito de senhora
Tinha mimoso agasalho.
 
Ao primeiro o dono humilde
Espinhas apenas dava;
Com esquisitos manjares
O segundo se engordava.
 
Miou, e lambeu-o aquele
Por o ver da sua casta;
Eis que o brutinho orgulhoso
De si com desdém o afasta.
 
Aguda unha vibrando
Lhe diz: «Gato vil e pobre,
Tens semelhante ousadia
Comigo, opulento, e nobre?
 
Cuidas que sou como tu?
Asneirão, quanto te enganas!
Entendes que me sustento
De espinhas, ou barbatanas?
 
Logro tudo o que desejo,
Dão-me de comer na mão;
Tu lazeras, e dormimos
Eu na cama, e tu no chão.
 
Poderás dizer-me a isto
Que nunca te conheci;
Mas para ver que não minto
Basta-me olhar para ti.»
 
«Ui! (responde-lhe o gatorro,
Mostrando um ar de estranheza)
És mais que eu? Que distinção
Pôs em nós a Natureza?
 
Tens mais valor? Eis aqui
A ocasião de o provar.»
«Nada (acode o cavalheiro)
Eu não costumo brigar.»
 
«Então (torna-lhe enfadado
O nosso vilão ruim)
Se tu não és mais valente,
Em que és sup'rior a mim?
 
Tu não mias?» - «Mio.» - «E sentes
Gosto em pilhar algum rato?»
«Sim.» - E o comes?» - «Oh! Se como!...»
«Logo não passas de um gato.
 
Abate, pois, esse orgulho,
Intratável criatura:
Não tens mais nobreza que eu;
O que tens é mais ventura.»

                                                              Bocage

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