24 de julho de 2010

Wishlist #1

O museu de Lisboa onde acho que já entrei mais vezes tem pouco mais de um ano. Mas, por estar num lugar de passagem, por não se pagar entrada e por ter uma coleção em constante renovação, é uma tentação sempre que passo na rua Augusta.

O MUDE, instalado na antiga sede do BNU antes de uma adaptação definitiva a museu, expõe as obras da coleção de Francisco Capelo (o principal responsável pela seleção das peças de Joe Berardo), integradas num espaço enorme e esventrado, com um contraste incrível que por isso mesmo ganha um encanto especial. Sempre que lá vou, apetece-me levar algumas peças para casa. Uma delas é esta DCW Dining Chair, de Charles e Ray Eames, 1945:

Acabo de me aperceber que talvez um dia possa comprar uma réplica através daqui.

21 de julho de 2010

Uma história sobre Oliveiras

Era uma vez 3 irmãos*: João, Joaquim e Maria Augusta, todos nascidos em Currelos, na Beira Alta, entre o final dos anos 20 e o início dos anos 30. Todos Oliveiras.

João, devido a problemas de saúde, cedo se mudou para Lisboa, para mais perto do mar, onde foi criado pelos padrinhos. Joaquim, devido a uma discussão com o pai por causa de um pessegueiro, emigrou para o Brasil, sem nada nem ninguém. Maria Augusta ficou, com o desgosto da mãe e a zanga do pai. João e Joaquim já morreram, um em Lisboa em 1989, outro no Rio em 2006. Desde a partida para o Brasil, julgo que nos anos 50, só se viram uma vez, em Lisboa, e já praticamente sem João ter noção desse encontro. Maria Augusta era o único elo de ligação, que com o tempo se foi perdendo.

João era o pai do meu pai, o meu avô João. E desde há uns tempos que eu e o meu irmão nos interrogávamos se não teríamos primos no Brasil, talvez até parecidos connosco.

No dia 1 de Março deste ano tudo mudou. Recebi uma mensagem no Facebook, com o título «Contato familiar no Brasil». Era o neto mais velho do tio Joaquim, que andava à procura da «família portuguesa». E a partir daí os acontecimentos precipitaram-se: troca de nomes, de contactos, de mails, e agora… a vinda dele e de mais uma prima a Portugal. (Curiosidade: o Vinicius é a cara chapada do meu irmão, em moreno e mais magro…)

Nos últimos dias, descobri e apaixonei-me pela minha nova família, e abriram-se novos horizontes na minha vida. Sinto-me muito, muito feliz e sortuda por saber que tenho uns primos (todos Oliveiras) que parece que conheço desde sempre e de quem agora nos despedimos com as lágrimas a escorrer pela cara abaixo.

É só o princípio de uma história feliz.

* Sei, pelo Geneall, que houve um quarto irmão, mais velho, chamado António Gonçalo, mas os pormenores ficam por aqui.

10 de julho de 2010

Uma simbiose perfeita

Fotografia de Marcelo Hoffmann.

Há 2 anos, quando estive internada em S. José no serviço de oftalmologia para pôr as lentes intra-oculares, lembro-me de ver passar no corredor uma cega com um cão-guia à frente. Naquela situação, e com aquela ansiedade inerente e inevitável de quem vai ser operado (ainda que soubesse que a taxa de sucesso era altíssima), apercebi-me da importância de um cão-guia na vida de um cego.

Um cão-guia bem treinado evita que o dono se depare com obstáculos no chão (buracos, excrementos, degraus, poças de água…), evita os que ameaçam a cabeça do cego (como ramos de árvores), procura-lhe uma caixa multibanco ou um lugar sentado nos transportes públicos, localiza as passadeiras e o sinal verde para atravessar. E, claro, faz-lhe companhia. E fazem-se companhia um ao outro.

Em Portugal, apenas uma escola se dedica ao treino destes cães, quase todos retrievers do labrador por serem muito meigos, apegados ao dono e fáceis de educar. Na Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual os cães são treinados durante dois anos até poderem ser atribuídos a um cego. Desses dois anos, o primeiro é passado junto de uma «família de acolhimento», encarregada de socializar o cão, de o habituar a ir à rua e a conviver com outras pessoas e animais. Sempre sob a supervisão e com as instruções de um educador. Depois, é a separação gradual, um treino mais intenso e o início da relação com o futuro dono. Sublinhe-se que, em Portugal, os cães-guia não são pagos, apesar de a sua educação sair bem cara. Mas, como se costuma dizer, «é por uma boa causa»

Há dias, quando comentei com uma colega que ia escrever sobre os cães-guia, perguntou-me se estes cães não seriam meramente utilitários e pouco felizes, vivendo apenas em função do dono. Hoje, depois de ter lido mais umas coisas, respondo que não acho. Quem tem cães sabe que um cão, e sobretudo um labrador, vive em função do carinho do dono (e só assim vive feliz). E, parece-me, não há cães com mais atenção e amor do que estes. Uma simbiose perfeita.

1 de julho de 2010

Silêncio, por favor

Se tenho uma visão muito deficiente, que um dia me obrigou a colocar lentes intra-oculares, já a minha audição compensa-a em larga escala. E, se calhar por ouvir demasiado bem, eu não gosto de barulho. Em geral, de espécie alguma. Mas há certos barulhos que ouço com muita frequência e que têm o dom de me irritar ao ponto de não conseguir sequer pensar em mais nada a não ser no seu fim:

- televisão com o volume alto – em minha casa está sempre quase no mínimo; na casa dos outros, se tenho confiança acabo por pedir para baixarem o som;

- música em altos berros – se vem de casa dos vizinhos, entro numa espiral de irritação que por vezes só termina quando (delicadamente) lhes toco à porta para pedir para reduzirem o volume; em casa do meu pai (que adora ouvir música alto, apesar de ter uma boa audição) não tenho grande autoridade para a baixar;

- carros e motas a acelerar – se fosse polícia, multava todos os que ultrapassam os decibéis razoáveis permitidos por lei e que deviam ter sido controlados nos centros de inspecção automóvel;

- helicópteros – hoje em dia faz-se descolar um helicóptero por tudo e por nada: para observar o trânsito, para filmar desfiles e outros eventos, para controlar manifestações. Ao ouvir bater as pás de um helicóptero, consigo imaginar muito ao de leve o que será estar num cenário de guerra;

- crianças aos gritos – sobretudo se for a fazerem birra. E sobretudo se acompanhadas dos pais também aos gritos a dizerem-lhes para se calarem.

27 de junho de 2010

Realidade e ficção

Este verdadeiro peixe-palhaço, fotografado por David Doubilet na Papua-Nova Guiné, não podia ser mais parecido com o meu querido Nemo. E com um olhar destes, o Nemo não podia ser nada menos do que um peixe curioso.

24 de junho de 2010

Sou intolerante para com a intolerância

Acabo de saber que o jornal 24 horas vai fechar. E, por conhecer lá algumas pessoas e estar preocupada com o seu futuro, andei pelo site do Público para tentar perceber o que se passa. Deparei com a secção dos comentários e não posso deixar de me insurgir com o facto de a grande maioria aplaudir o fecho do jornal. Comentários como «Até que enfim!», «Já é tarde!», «Haja alegria!», «Não é pena» ou «Finalmente!»…

Eu também não gosto nada do estilo do 24 horas. E, por isso, não o leio. Tal como não gosto de dobrada nem de telenovelas. E, por isso, não a como nem as vejo. E gosto ainda menos de pessoas intolerantes. E, por isso, evito-as.

É bom ter liberdade de escolha. E é pena saber que uma data de gente vai perder o emprego.

Quantas palavras cabem dentro de uma palavra?

Este era um jogo que eu costumava jogar com o meu pai, não me lembro muito bem com que idade, mas certamente numa altura em que já dominava bem a língua. Não era preciso nenhuma consola, nem nenhum computador, nem mesmo um tabuleiro ou peões. Só dois pedaços de papel e dois lápis. E nem era preciso grelhas certinhas como as usadas para jogar ao STOP. Nem mais do que dois jogadores. E as possibilidades eram ilimitadas.

O mecanismo era muito simples. Pensávamos numa palavra ou retirávamo-la de um qualquer jornal ou revista que estivesse ali à mão. De preferência, uma palavra que tivesse pelo menos 3 sílabas, para dar mais hipóteses. E depois, pegando apenas nas letras da palavra, tínhamos de listar o maior número de palavras de que nos lembrássemos num período de tempo limitado. Por exemplo:

CADEIRA (1 cê, 2 ás, 1 dê, 1 é, 1 i e 1 érre): ira, eira, dar, cada, ara, ria, der, dera, dica, cara, cera, cair, ar, ir, dera, dia, ida, rei…

Hoje já há uma série de aplicações online e no iPod com este jogo. Mas na altura não havia. E nós, mesmo assim, jogávamo-lo no mínimo todas as semanas. Hoje trabalho com letras e com palavras. E jogo-o no meu iPod.

23 de junho de 2010

True love

Uma imagem de uma beleza extrema. Um amor verdadeiro só separado pela morte.


Crédito: Diário de Notícias.

18 de junho de 2010

Apagou-se mais uma das minhas velas

Bem sei que grande parte dos blogues deste país devem ter hoje José Saramago como tema. Mas eu não seria eu se o meu também não o homenageasse.

Se há 2 semanas sofri com a morte de João Aguiar, hoje sofro com a morte de Saramago, mais um escritor que faz parte da minha vida e das minhas referências. E dou por mim a pensar que, dos meus escritores de eleição da literatura portuguesa, dos que me faziam mal dormir para ir comprar o último livro publicado, já nenhum está vivo: Vergílio Ferreira morreu a 01.03.96, João Aguiar a 03.06.10 e José Saramago a 18.06.10. Todos grandes escritores, todos grandes homens, todos seres humanos integrais.

De Saramago me ficam muitos livros fantásticos, de uma imaginação sem limites e sempre reflexo de um grande humanismo. Três autografados e tantos outros que nunca lhe vão passar pelas mãos.

Recordo um tópico que escrevi aqui no blogue sobre A viagem do elefante em Dezembro de 2008. Tópico em que dizia que se me formava «um nó na garganta e um aperto no peito só de imaginar que um dia poderá não haver mais elefantes a viajar pela minha imaginação».

Hoje é o dia.

17 de junho de 2010

Manifesto

Eu, Vespinha, me confesso: gosto de jogar Farmville.

Gosto de escolher o que vou semear, de esperar para ver as sementes a medrar, de comprar e vender animais da quinta, de fazer colheitas e tirar leite às vacas, de apreciar a perfeição de certas peças, frutos e legumes, de treinar os meus cães virtuais, de fertilizar os campos dos meus vizinhos, de lhes oferecer presentes e receber outros em troca. E também gosto de regar as minhas plantas verdadeiras, de lhes arrancar as ervas daninhas, de escovar, alimentar e mimar as minhas gatas de carne e osso. Mas também gosto do Farmville. E uma coisa não interfere com a outra.

So what?

16 de junho de 2010

Mudam-se os tempos...

Eu, que há 2 anos não podia ver estas sandálias à frente, agora estou apaixonada pelas minhas... Comecei a olhar para elas duas vezes, depois a achar piada às que tinham padrões, e depois às simplesmente coloridas. Estas são «peridot green», com brilho envernizado. E ficam o máximo depois de calçadas.

12 de junho de 2010

Roma - 7, Lisboa - 9

Já regressei há 3 semanas, mas precisei de algum tempo para me ajudar a combater o deslumbramento/desapontamento da minha viagem a Roma. Porque tenho a certeza de que se tivesse escrito logo teria sido muito mais mázinha.

Tinha estado em Roma há talvez uns 15 anos e não tinha gostado, julgava que pelo choque de ali aterrar vinda de Veneza e Florença. Por isso voltei, agora só a Roma e durante uma semana, para não haver termo de comparação.

Mas comparo-a, é inevitável. Com Lisboa.

As esplanadas: 1-0
Os romanos sabem tirar partido de qualquer cantinho ao ar livre. Qualquer bocado de passeio serve para estender uma esplanada, e se não houver passeio passa para a estrada.

A limpeza das ruas: 0-1
Beatas, papéis, sacos do lixo abertos, ausência de caixotes do lixo, Roma é uma cidade suja. Em pleno centro, andei mais de 15 minutos (o equivalente a cerca de 1 km) com um papel na mão até encontrar um caixote para o deitar.

Os gelados: 1-0
Geladarias por todo o lado, sabores escolhidos ao dedo (o de Baci é fenomenal) e preços que põem os senhores do Santini e da Häagen Dazs a um canto. Pagava por duas bolas generosas o que cá pago por uma mirradinha.

As igrejas: 1-0
Ainda não tive coragem de entrar numa igreja em Lisboa depois de voltar. Porque acho que me vou sentir muito pobrezinha.

O trânsito: 0-1
Em Roma é caótico, como já previa. Os peões atravessam onde calha e, surpreendentemente, conseguem sempre passar. As scooters parecem enxames (infelizmente, as Vespas já não dominam, foram ultrapassadas pelos modelos japoneses) e conseguem o respeito dos carros. É difícil encontrar carro ou mota sem riscos, amolgadelas ou para-choques presos por cordéis.

A comida: 1-1
Pizas, massas, risotto, mozarela, tomate… Quem disse que a comida italiana engorda? A verdade é que comi à grande, por pouco dinheiro, e voltei com o mesmo peso. E a verdade também é que em Roma não vi obesos.

A simpatia: 0-1
De um modo geral, os romanos pouco se importam com o próximo. Se nos cai uma coisa ou chão, se nos atrapalhamos com uma expressão... who cares? Mas há excepções. Como duas ou três pessoas que nos deram indicações sem lhes pedirmos e a família do restaurante Santi, não esfuziante mas com uma simpatia discreta que nos fazia sentir em casa.

A ladroagem: 0-1
Há muitos e ainda por cima são cobardes, porque os carteiristas «atacam» no metro e em hora de ponta. Ao meu pai quem roubou a carteira foi uma mulher, apesar de não o termos conseguido provar. Três dias depois voltámos a cruzar-nos com ela num autocarro.

As ruínas: 1-0
Roma bate todos os recordes, tudo é grandioso, tudo é enorme, tudo é esmagador. O coliseu, os fóruns, o teatro de Marcelo, os mercados de Trajano, as termas de Caracala.

O rio: 0-1
O Tibre atravessa toda a cidade, bem perto da zona central, mas a cor das suas águas (castanho, faça chuva ou faça sol) transmite tristeza e mostra que os romanos não lhe dão a importância e o valor que podiam dar.

O sossego: 0-1
Os turistas não deixam Roma em paz. Andam em bandos, em hordas, japoneses e não só. A Piazza Navona, a Fonte de Trevi e a Praça de Espanha, mal as consegui ver. Tive a sorte de levar boas dicas para explorar bairros e atracções menos concorridos.

O planeamento urbano: 0-1
Pareceu-me que em Roma não existe. Os carros andam e estacionam por onde calha, as scooters ainda mais. Os peões, esses, vão para a estrada ou por onde conseguirem passar. Os passeios são estreitos, sujos e esburacados.

As fontes: 1-0
São tantas, e tão grandiosas, que aquelas que estão ao nível das nossas passam completamente despercebidas. Há fontanários de água fresca e potável por todo o lado e, em Roma, a venda de garrafas de água não deve ser um negócio muito lucrativo.
O Papa: 1-1
Ah pois é, aqui houve empate. Porque se não fui ver o Papa em Lisboa, fui vê-lo a Roma, onde por sorte assisti a uma missa inteirinha ao ar livre a elogiar e a falar da visita a Portugal.

As maiores surpresas: os mercados de Trajano, o gueto, o Trastevere, o Aventino, as basílicas, o Panteão, o Coliseu e os fóruns.

As maiores desilusões: a Capela Sistina (onde a multidão e os guardas constantemente a pedir silêncio não nos deixam estar em paz ), a Piazza Navona (muito descaracterizada com estruturas montadas pelo meio e gente que nunca mais acaba), o Castel Sant'Angelo (onde dei €8 para entrar, com os interiores muito descuidados e umas exposições miseráveis) e a desmistificação das Vespas reluzentes e coloridas por todo o lado.

Lisboa ganha, se não na perspectiva dos turistas com tantas coisas grandiosas para ver, pelo menos na minha. A que avalia a qualidade de vida.

11 de junho de 2010

É inédito, saiu hoje e já é meu

Grande surpresa tive hoje à hora de almoço, quando o meu irmãozinho me ligou a dizer que tinha uma coisa para me dar. Quando eu julgava que me ia aparecer com uma guloseima, tipo travesseiros da Piriquita ou pastéis de Belém, ofereceu-me algo ainda maior, porque com muito mais valor e inesperado.

Leitora apaixonada desnaturada, nem sequer sabia que estava para sair o único romance inédito do espólio de Vergílio Ferreira, Promessa, escrito em 1947.

Um dia, em Conta-corrente, Vergílio Ferreira escreveu: «Se um artista não quer que se lhe conheça a obra, destrua-a ele.» E se não destruiu este inédito antes de morrer, aos 80 anos, é porque não se importava que fosse publicado. Fico-lhe agradecida. A ele e ao meu irmão.

9 de junho de 2010

Tudo é relativo

Um promotor de um qualquer produto ou serviço à saída das caixas de pagamento do Continente, com um folheto na mão:
- Posso oferecer-lhe um pouco do meu tempo?

E eu que julgava que ele queria o meu...

Como Deus manda, de Niccoló Ammaniti

Tenho lido muito ultimamente, e tenho-me esquecido de vir aqui relatar o quê, mas este não posso deixar de recomendar. É violento, muito. Bastante cheio de palavrões também. Mas intenso como há muito tempo não me lembrava de ler algo, daqueles livros que me fazem resistir ao sono e, de manhã, ansiar pela hora de voltar a casa para continuar a ler. Com um ritmo rápido, com personagens agressivas mas humanas, capaz de me provocar riso, ternura e repulsa ao mesmo tempo. Um daqueles livros que, ao ler, imaginava em filme. Que entretanto descobri que já há.

Em resumo: numa pequena cidade italiana, um rapaz de 13 anos mora sozinho com o pai, um desempregado neonazi que vive de biscates, depois de a mãe os ter deixado. O pai tem dois amigos, um com problemas mentais e neurológicos obcecado por uma personagem de um filme porno, e outro também abandonado pela mulher depois de a filha ter morrido com uma tampa de champô entalada na garganta. Todos desempregados que um dia planeiam roubar uma caixa multibanco. Só que na noite combinada cai um temporal daqueles, que muda tudo.

Eu sei que parece tudo um bocado exagerado e até «faca na liga». Mas ao ler Como Deus manda, de Niccoló Ammaniti, parece tudo extremamente real. Tal como na vida real, as coincidências acontecem. E, tal como na vida real, muitas vezes as personagens sentem simultaneamente amor e ódio pelo próximo.

Ganhou o Prémio Strega, o mais importante prémio literário em Itália, onde a produção literária é muita e boa. Prémio também já atribuído a escritores como Alberto Moravia, Primo levi, Sebastiano Vassalli, Sandro Veronesi e Umberto Eco. Acho que não é preciso dizer mais nada.

3 de junho de 2010

Perdemos João Aguiar

Há cerca de 13 anos, andava eu no curso de jornalismo do Cenjor, um dos trabalhos que tínhamos de fazer eram jornais e revistas diários e semanais, um bocadinho a sério e um bocadinho a brincar. Para uma dessas «edições» quis entrevistar João Aguiar, um dos meus autores preferidos na altura e cujos livros ainda hoje compro logo que saem(saíam).

Já não sei muito bem através de que artimanha, mas alguém do Jornal de Letras deu-me o contacto do escritor. Lembro-me de estar no meu quarto, com o meu telefone vermelho (sim, eu tinha uma extensão do telefone lá de casa no meu quarto...), nervosa antes de marcar o número. Liguei-lhe para um fixo e João Aguiar logo se dispôs a receber-me em sua casa.

Era algures para os lados de Oeiras, recebeu-me numa sala com uma grande janela e muitos livros, e durante umas duas horas fiz-lhe perguntas sobre a sua escrita. De A voz dos deuses, o primeiro que li, até A encomendação das almas, num registo totalmente diferente. Um gato preto passeava pela casa, com um nome africano de que já não me recordo. João Aguiar recebeu-me com toda a humildade e com toda a simpatia, e respondeu-me a tudo o que lhe perguntei para um gravador ainda dos velhinhos.

Mais tarde, em Outubro de 2006, voltei a estar com ele num curso de escrita criativa, e por brincadeira levei-lhe uma cópia da «notícia» que sobre ele tinha escrito. Por essa altura já tinha lido tudo o que tinha publicado, e continuei a fazê-lo até hoje.

E digo até hoje porque hoje João Aguiar morreu. Com 66 anos, vítima de cancro. Morreu um dos escritores portugueses mais humildes e acessíveis, alguém sempre pronto para conversar e que não tinha medo de com outros partilhar as suas técnicas e as suas ideias.

Vou ter saudades.

24 de maio de 2010

Invasão

Não pode uma pessoa ausentar-se durante uns dias que, quando chega, depara com o seu blog invadido por comentários a essa mesma ausência.

Seus cuscos, para verem fotografias já podem ir ao facebook. Para as histórias, aqui em breve e pessoalmente mais brevemente ainda.

13 de maio de 2010

Resposta à papoila...

A. A minha flor preferida: flores silvestres, miudinhas e abundantes, amarelas, brancas e de todas as cores que encontrar.

B. Uma mezinha caseira: não é propriamente caseira mas resolve muita coisa aqui por casa. São os famosos dodots (ou um produto branco por eles). Limpam-me a pele depois de mexer na terra, limpam manchas no sofá e no tapete, limpam as orelhas das gatas, limpam as esquinas das paredes e as ombreiras das portas. Verdadeiros tudo-em-um.

E já agora gostava que estes bloggers respondessem ao mesmo. Tenho especial curiosidade acerca das mezinhas caseiras:

6 de maio de 2010

Até que a morte nos separe

Era uma vez um cão de peluche. Que nos seus melhores tempos deve ter sido uma espécie de Snoopy (digo isto apenas pelas cores, porque quanto à forma, coitado...). E que me ofereceram num dia muito próximo do dia em que nasci.

A primeira vez que tive consciência da existência dele já se chamava Nique (se calhar seria Nick, mas na minha cabeça sempre foi com «q de nove»), julgo que por influência de um cão a sério que era dos meus avós. O Nique foi diversas vezes à máquina, teve olhos de vidro muito variados, até que para o fim desistiu-se de cosê-los novamente. Sempre com o pêlo ligeiramente encardido. E, durante muitos anos, o Nique nunca saiu do meu quarto. Não que estivesse em exposição em cima da cama, porque nunca gostei de bonecos de peluche, mas do armário não saía.

Quando passei uma temporada no Sul de Inglaterra levei o Nique na mala. E o Nique fez-me passar uma vergonha quando no regresso me inspeccionaram a bagagem e o tiraram de lá com cara de gozo. Escusado será dizer que o Nique nunca mais viajou...

Mas quando saí de casa dos meus pais o Nique foi comigo e lá ficou num armário. Quando mudei novamente de casa, veio comigo e no novo armário passou a viver. Há 2 dias fiz arrumações, reorganizei o armário, e lá estava ele, quieto e vigilante. Deve ter-me escapado à reorganização, deve ter ficado atirado para um canto, e hoje, quando cheguei a casa, parece que a minha empregada tinha dado com ele. E foi assim que o encontrei:


Vinha com a neura. Passou-me logo.

1 de maio de 2010

Instantes de Aveiro

Nada como pegar numa bicicleta para ficar a conhecer alguns dos recantos mais bonitos de uma cidade. Em pouco mais de 3 horas, Aveiro ficou-me assim gravado:

27 de abril de 2010

Detector de mentiras

E se eu conseguisse, através da simples análise corporal, perceber quando é que alguém está a mentir? Quando alguém demonstra raiva, desprezo, medo, culpa, surpresa genuína? Às vezes dava jeito, outras nem por isso. Se algumas expressões já conheço, como o cruzar os braços numa posição defensiva, confesso que tenho alguma inveja de Cal Lightman e da sua equipa.

Para mim, Lie to me é uma das séries do momento, com uma brilhante interpretação de Tim Roth na pele do expert obcecado e cheio de tiques, sentido de humor q.b. e muitas mentiras e verdades apanhadas pelo meio.

O trailer ajuda:



E o genérico também:

25 de abril de 2010

Dia importante

Ainda não tinha 4 meses no dia 25 de Abril de 1974, por isso faço apenas uma pequena ideia de como se terá vivido antes.

Histórias contadas pelos meus pais e pelos meus avós, histórias de senhas ditas pelo telefone e de depósitos de combustível escondidos em subterrâneos, histórias de suspeitas que nunca se vieram a confirmar. Numa fotografia na parede da minha sala, o meu avô, jornalista «à antiga», aponta notas num bloco em pleno Largo do Carmo, ao lado de um tanque e de uma multidão dividida entre medo e curiosidade.

Notas que devem ter servido para compor a notícia publicada neste jornal:

19 de abril de 2010

Reviravoltas

Há 3 anos, precisamente no dia dos meus anos, fiquei muito impressionada com o enforcamento de Saddam Hussein. Porque me parecia frágil, velho, acabado, sem qualquer hipótese de se defender. Porque por princípio sou contra a pena de morte. Porque me pareceu um gesto sádico a transmissão televisiva da execução. Fazia uma pequena ideia das atrocidades que o ditador havia cometido. Mas uma ideia mesmo muito pequena.

Acabei há dias de ver «House of Saddam», uma série da HBO em 4 episódios que passou há meses e que tinha aqui gravada. E aconselho-a a toda a gente. Em primeiro lugar, porque está muitíssimo bem interpretada por um elenco israelita e iraniano. Em segundo, porque nos dá uma perspectiva muito mais próxima e clara das coisas. Mostra-nos Saddam desde o dia em que tomou o poder até ao dia do seu enforcamento, depois de ter sido encontrado num buraco, escondido como um animal. Um homem que adorava os seus filhos e filhas mas que era capaz de matar o seu melhor amigo só para parecer ainda mais forte. Um homem que dizia reconhecer um traidor ainda antes do o próprio saber que o era.

Recordo as imagens da execução de Saddam. Mas recordo também os rostos dos milhares de homens mortos com uma bala na testa, após julgamentos sumários. E tenho pena de um e dos outros.

Foram-me (outra vez) ao bolso

Quando comprei a minha primeira casa pedi um empréstimo ao BBVA. Porque era o banco que tinha acordo com a EPUL e porque supostamente tudo seria mais fácil. Não tenho memória de grandes facilidades ou de grandes dificuldades, apesar de me lembrar que o meu pai já estava pelos cabelos com a quantidade de papelada que lhe pediram por ser meu avalista.

Durante 6 anos, andei a pagar esse empréstimo com um spread de 0,9%, nada meigo e que nunca me deixaram negociar. É claro que quando decidi trocar de casa nem uma simulação lhes pedi. Ao aperceberem-se de que estava a pedir um empréstimo a outro banco, foi com grande descaramento que me ligaram a «pedir satisfações». Disse-lhes que não tinham nada a ver com isso e acabou.

Só que através do BBVA ainda tinha um empréstimo automóvel (que há muito que não está comigo) que só terminei de pagar em Janeiro deste ano. Alegria! Satisfação! Alívio! Mal pude, fui tentar fechar a dita conta. Sublinho: tentar. Porque, como pelos vistos ainda havia cheques na minha posse, teria de os procurar e só depois avançar com o encerramento da conta. E é claro que não os encontrei, devo tê-los rasgado entretanto. Hoje lá fui de novo ao banco, tentar mais uma vez o dito encerramento. E consegui. Ah pois consegui. Não sem antes ter pago €6,00 por cada um dos cheques que não encontrei, não vá alguém aparecer no banco com a minha assinatura para os levantar. Foram €66,00 por 11 cheques emitidos entre 2002 e 2007.

E foram 8 anos em que estes senhores me roubaram. Até ao último dia. Não sei o que se passará com o banco em que agora tenho conta. Pelo menos sei que ainda nada sei.

14 de abril de 2010

À la mode

Uma das melhores amigas da minha mãe descobriu isto e eu tenho de divulgar: segundo o Le Figaro, a Vespa está mesmo na moda em Paris. Mais ou menos potentes, mais ou menos coloridas, as Vespinhas já se vêem por todo o lado, sobretudo agora com o bom tempo a chegar. E eu, que ainda só fiz 500 km com a Vespa nova, mal posso esperar para que Lisboa também adira à moda.

10 de abril de 2010

Então, não atendes?

Desafio quem me lê a encontrar aqui o telemóvel. Encontraram? Eu também, e ainda bem que isto é virtual, senão não estaríamos agora aqui, uma a escrever e outros a ler.

E não é por já ter apanhando duas multas de €120,00 por falar ao telemóvel enquanto conduzia que publico isto. Não, não é (até porque essas devem ter sido as duas únicas vezes na vida em que não usei auricular...).

É porque acredito mesmo que com um telemóvel na mão se conduz pior (para dizer a verdade, o simples facto de falarmos ao telemóvel, ainda que com auricular, já distrai q.b.). E para que se saiba porque é que às vezes não atendo o telemóvel. Porque não tenho o auricular posto ou ali à mão. Por muito irritante que seja o som do telemóvel a tocar sem parar.

5 de abril de 2010

Amor de pai

Se alguma vantagem posso encontrar em ter trabalhado que nem uma moura durante os últimos 3 meses e também durante os 3 dias da Páscoa, terá a ver com pequenas surpresas que me fizeram sentir que, apesar de enclausurada, houve gente lá fora que não se esqueceu de que eu estava lá dentro.

Depois de uma 5.ª feira com tolerância de ponto que para mim não existiu, na véspera de um sábado na expectativa de continuar na empresa, a meio de uma 6.ª feira-santa que me parecia uma 6.ª feira qualquer, o meu telemóvel toca e o meu pai pede-me para ir lá fora. Vou, em stress, a pensar no paginador que fica à minha espera. O meu pai traz na mão dois ramos de flores: «Um para ti e outro para a tua colega que também cá está, para o dia não vos custar tanto.» E um pacote de amêndoas de chocolate. Um beijinho e vai-se embora a correr para não me tomar mais tempo.

Não tive tolerância de ponto, não tive a 6.ª feira nem o sábado para descansar. Mas tenho um pai que com um gesto tão simples e tão dele alegrou o nosso o dia e mudou mais um bocadinho a nossa vida.

Posso meter uma cunha para o clonar?

Restart

A Vespa está de volta, com novas histórias, novas críticas, novas queixas, novos gostos e desgostos. A partir de agora.

14 de março de 2010

Paragem técnica

Até ao final do mês.

Não que não tenha coisas interessantes para contar, mas o fecho de uma campanha escolar, com revisões, validações e congressos pelo meio, não está a deixar tempo para mais. Quem me conhece sabe bem o que isto é...

Só um pequeno resumo do que aí virá:
- 7 primos novos no Brasil para apresentar;
- 1 Vespa nova para mostrar;
- pequenas coisas sobre filmes para contar.

6 de março de 2010

Coisas relativas

Com a cabeça esgotada de imagens terríveis das cheias na Madeira e dos sismos no Chile e no Haiti, quando achava que já quase nada me podia chocar, dou por mim impressionada com estas imagens da movimentação de areias na praia do Guincho captadas no passado fim-de-semana:

Tenho medo do que possa ter acontecido na Adraga.