11 de outubro de 2010

O Japão é um lugar estranho, de Peter Carey


Por motivos que não esperava, fui despertada nos últimos tempos para o universo da banda desenhada manga e para os filmes anime. Há dias, na Fnac, encontrei perdido junto da literatura de ficção um livrinho pequenino, em formato de bolso, qualquer coisa do tipo How to draw manga. Folheei-o e achei graça, mas deixei-o lá.

E uma edição da Tinta-da-China para a Sábado trouxe-me entretanto esta maravilha: O Japão é um lugar estranho, de Peter Carey. O pai, Peter Carey, leva o filho, Charlie, numa viagem ao Japão. Não para conhecer o «Verdadeiro Japão», como Charlie faz questão de advertir o pai, mas o Japão dos dias de hoje, o Japão povoado da cultura manga, o Japão em cujas ruas circulam naturalmente visualistas de cabelo no ar e vestuário muito inusitado.

Entrevistam desenhadores e argumentistas de manga e de anime, conhecem outros fãs como Charlie, visitam um fabricante de espadas, percorrem um mega centro comercial de jogos electrónicos...

No fim da viagem, feito o balanço, não será este também o «Verdadeiro Japão»?

10 de outubro de 2010

Jardineiros não há muitos

As minhas leituras atrasadas da National Geographic trazem-me por vezes surpresas completamente inesperadas. Na edição de Junho deste ano, fui surpreendida pelos jardineiros, uma ave que vive exclusivamente na zona da Papua-Nova Guiné, distribuindo-se por cerca de 20 espécies.

E o que torna estes jardineiros tão especiais? A construção artística de caramanchões apenas para seduzir as fêmeas. Segundo alguns biólogos, são as aves «mais intrigantemente humanas», sendo a única espécie, para além da nossa, capaz de matar (pequenos insectos) com fins meramente decorativos.

Utilizam galhos, flores, insectos mortos, bolotas, bagas, latas... tudo o que apanham e que seja vistoso e colorido. Alguns exemplos destas maravilhas artisticamente construídas:

Fotografia de Jean Marc Gayman

Fotografias de Tim Laman

4 de outubro de 2010

Serviço público para as minhas amigas

Ontem tomei a primeira dose da vacina contra o HPV (papilomavírus humano), responsável pela maioria dos casos de cancro do colo do útero. Daqui a 2 meses ser-me-á administrada a segunda dose e daqui a 6 meses a terceira. As 3 doses são caras (cerca de €450, sem comparticipação) mas, por me ter sido aconselhada por quem sabe e por me ter apercebido de que a maioria das pessoas ainda julga que esta vacina só é eficaz se tomada na adolescência, aqui ficam alguns dados importantes. Para que, se puderem, sigam o o meu exemplo.

- O cancro do colo do útero é a segunda maior causa de morte de mulheres entre os 15 e os 44 anos, logo a seguir ao cancro da mama.

- Na Europa, morrem anualmente 15 000 mulheres de cancro do colo do útero - o equivalente a 40 mulheres por dia e duas mulheres por hora.

- O cancro do colo o útero é causado exclusivamente pelo HPV.

- Cerca de 70% das pessoas sexualmente activas serão expostas ao HPV num determinado momento das suas vidas.

- A ligação entre o HPV e o cancro do colo do útero é muito mais estreita do que a ligação entre o tabaco e o cancro do pulmão.

- A vacina do cancro do colo do útero cobre os tipos de HPV que causam 75% dos casos de cancro do colo do útero.

Se, até há algum tempo, a vacina contra o HPV era recomendada exclusivamente a raparigas antes de iniciarem a sua vida sexual (fazendo inclusivamente parte do Plano Nacional de Vacinaçãoi), estudos mais recentes demonstram que, mesmo quando administrada mais tarde, a vacina é eficaz, tanto na prevenção da infecção como na diminuição da probabilidade da sua degeneração em cancro.

Gastamos muito facilmente €100 ou €150 num par de botas. Gastar €450 repartidos por 6 meses para salvar a nossa vida parece-me um muito bom negócio.


PS: Conselho (este também) de amiga: não pesquisem no Google imagens de HPV. É muito, muito mau.

Obrigada às minhas bichinhas

Por estarem sempre presentes quando preciso delas. Por perceberem quando estou triste e quando estou contente. Por darem sempre mais uma oportunidade à minha por vezes indiferença. Por me revelarem um amor incondicional.

Hoje, no Dia do Animal, a Vespa e a TT têm direito a uma latinha gourmet. Amanhã, a Twiggy receberá um osso especial. E, todas, terão a minha companhia e a garantia de que nunca as esquecerei.

3 de outubro de 2010

Caderneta de cromos - My best of


Depois de 10 serões a rir-me e a sentir por vezes também um bocadinho de nostalgia, acho que se tem de exigir ao Nuno Markl que comece a pensar no segundo volume da sua (e nossa) Caderneta de cromos.

Anyway, esta já me encheu as medidas. Para além das coisas de que me lembro muitas vezes (como o Dartacão, os granizados Fá ou o Agora escolha), outras trouxeram à superfície memórias há muito enterradas e outras que julgava que só eu as tinha. Este é o meu best of desta edição:

- as Belinhas - a descrição da sensação de tirar uma Belinha do pacote e virem 6 ou 7 coladas umas às outras é perfeita. E sim, também eu as comia como se um naco de pão se tratasse;
- a Cola Cisne - a propósito de muitos da minha geração experimentarem comer esta cola porque era «docinha», Markl refere algo que eu já estou farta de contar mas em que até hoje ninguém acreditava: o truque de mordermos as pontas dos lápis de cor para colorir as pastilhas elásticas que mastigávamos. Sim, eu fazia isto na primária. E pelos vistos mais gente também;
- o jogo do Sabichão - aquilo funcionava mesmo, e nunca perdeu a magia até Markl contar como conseguia baralhar o boneco... Afinal, era tudo uma questão de magnetismo;
- os bichos da seda e os grilos - durante os poucos anos que mediaram até convencermos o meu pai a ter um gato em casa, por lá também passaram estes dois espécimes. Ainda me lembro do desgraçado do grilo dentro da minúscula e ridícula gaiola de plástico, e de à noite o metermos na cuba da máquina de lavar roupa para não o ouvirmos a grilar...
- os Kalkitos - este é daqueles entretenimentos que tenho a certeza de que ainda hoje usaria se ainda existissem. Mas o que é passou pela cabeça de alguém para os descontinuarem?
- os Estrumpfes - tinha tantos e já não sei de nenhum...
- os jogos eletrónicos portáteis - tinha um tio que estava sempre na vanguarda destas coisas, e como eu adorava jogar a estes precursores das PSP e afins... Acho que ainda hoje conseguiria ajudar o canalizador que corria com um balde para apanhar gotas caídas dos canos;
- as borrachinhas de cheiro e as «folhinhas queridas» - coleccionava-as às centenas, e nesta campo era alvo de algumas invejas;
- as perneiras - usei-as muito e bastante coloridas, tricotadas pela minha mãe ou pela minha avó, e anseio pelo dia em que voltarão a estar na moda;
- os autocolantes na janela - os meus não eram colados na janela, mas em toda a mobília, autocolantes minúsculos vindos na Bravo e que completavam a decoração do meu quarto, forrado de posters em todas as paredes e até no tecto (sim, no tecto estava o Michael J. Fox com o seu cão que até era parecido com o meu...);
- os Jogos sem fronteiras - no verão não perdíamos uma emissão, e lembro-me bem de uma vez, no Algarve, irmos visitar um cenário que tinha servido para os jogos do ano anterior. Estava tudo desfeito e até um pouco podre, mas que emoção...
- os livros da Anita - a doçura das ilustrações e a beleza das histórias encantaram-me horas a fio. Julgo que ainda devem estar guardados no consultório do meu pai. Espero que sim;
- O Monstro da Lagoa Negra - disto, lembro-me apenas dos óculos de papel e acetato e de uma imagem em 3D de peixes dentro da lagoa. E de mais nada;
- os Onda Choc e os Ministars - eles eram modernos e eu, secretamente, também o queria ser.

30 de setembro de 2010

Relativizar

Ontem, às 20h, em casa da minha mãe, acompanhei atentamente as declarações do governo acerca das novas medidas de austeridade, fazendo contas, egoisticamente, acerca de que forma nos poderiam afectar. Fiquei preocupada. Fomos jantar, conversámos, voltámos a fazer contas mas não chegámos à sobremesa.

Pois, cerca de uma hora mais tarde, pelas 21h, o meu irmão conduzia desesperadamente para o hospital, com a minha mãe no banco de trás, a sofrer de uma dor de cabeça brutal, e comigo ao lado, a pingar suor com uma crise vagal (que tenho frequentemente em ocasiões destas). Quando lá chegámos, a minha ansiedade era tanta que nem consegui levar a minha mãe até à triagem. Alguém a levou numa cadeira de rodas enquanto outro alguém me ajudava a mim.

Felizmente, passou-me depressa. Felizmente, o meu pai apareceu e conseguiu que ela fosse rapidamente vista. Felizmente, a TAC cerebral e as análises estavam limpas. Felizmente, pela 1h da manhã saíamos de lá cansados mas mais descansados. O que uma forte dor de cabeça associada a uma data terrivelmente triste pode fazer.

Para contextualizar, faz hoje 13 anos que a minha querida avó morreu repentinamente, em apenas duas horas, com um aneurisma cerebral.

25 de setembro de 2010

Perfumado

Adoro tudo o que sejam aromas: para o corpo, para a casa, para a roupa. Esta última descoberta é um achado, passe o pleonasmo. Comprei-o na Body Shop, por apenas €10, e perfuma-me os lençóis com uma fragrância suave e não enjoativa que (acho que) me dá um sono verdadeiramente relaxante. Recomendo mesmo.

23 de setembro de 2010

Amizade é...

... estar com amigas que não vemos há mais de um ano e rirmo-nos como se tivéssemos estado juntas ontem.

19 de setembro de 2010

Faltam apenas 4 dias...

... para poder deitar as mãos a esta pérola:
Depois das crónicas que tenho ouvido na Comercial e de algumas que fui lendo na Sábado, mal posso esperar para ler este best of dos "cromos" que fizeram a minha infância e a minha juventude. Que sorte tem a minha geração de o Nuno Markl lhe pertencer.

14 de setembro de 2010

Uma triste figura

Eu até gosto desta ministra. Eu até gosto e muito dos livros que escreveu. Eu até acredito nas suas boas intenções.

Mas convenhamos que esta mensagem de início de ano lectivo lhe saiu muito mal. O cenário é péssimo, com as flores no aparador lá atrás. O enquadramento também, e alguém lhe devia ter emprestado um teleponto a sério que lhe permitisse olhar directamente para a câmara. O eco dá-lhe um ar de tempo de antena dos pequenos partidos.

E, a cereja no topo do bolo, o tom do discurso e a expressão corporal: uma falsa alegria, um falso entusiasmo, uma tentativa de chegar junto dos alunos que se torna deprimente. Haverá aluno (ou professor) que consiga prestar atenção até ao fim?

Não terá o Ministério da Educação assessores que pudessem filtrar uma intervenção como esta? E não se arranjaria por lá uma salinha mais decente? Até eu me sinto envergonhada ao ver este vídeo...

12 de setembro de 2010

O arquitecto

E ainda a propósito do tópico de ontem, a proposta de um livro curiosíssimo sobre o arquitecto do World Trade Center, Minoru Yamasaki.

Hoje praticamente um desconhecido, Yamasaki foi o projectista de duas grandes obras: o complexo urbanístico Pruitt-Igoe, em St. Louis (implodido em 1971 devido ao estado de decadência em que ficou, fruto da sua própria estrutura); e o World Trade Center, ferozmente atacado pela crítica na época - "Se o World Trade Center viesse a sofrer o destino do Complexo Pruitt-Igoe, e fosse condenado à morte pela dinamite, muitos de nós estariam aqui para aplaudir" (The New York Times).

Neste pequeno livro da Tinta-da-China, Rui Tavares encena uma peça de teatro sobre o arquitecto maldito, "mais célebre pelas obras que lhe destruíram do que pelas que construiu". Pelo meio, ainda, uma teoria muito curiosa sobre a inspiração por detrás do projecto do WTC. Mas dessa não falo aqui, para não quebrar o suspense.

11 de setembro de 2010

Onde é que estava no dia 11 de Setembro de 2001?

Chang W. Lee, The New York Times

Duvido que haja muita gente com mais de 20 anos que não saiba responder a esta pergunta. Não porque estivesse a fazer algo de especial, mas porque o atentado às Torres Gémeas marcou o mundo a curto prazo, pela sua brutalidade, acabando por virá-lo do avesso, a médio e longo prazo.

Eu, tenho a certeza, fazia a coisa mais banal do mundo: conversava depois do almoço num antigo silo em Alcântara, onde trabalhava como copy. Estávamos junto à escada de incêndio quando a notícia chegou. E depois, durante o dia, sei que acompanhei o acontecimento, só que não recordo mais pormenores. Foi aquele momento que ficou congelado na minha memória. Um momento de choque, de incredibilidade, de impossibilidade.

Angel Franco, The New York Times

Do que o ser humano é capaz.

1 de setembro de 2010

31 de agosto de 2010

Um dia de calor no zoo...

... deixa os animais neste estado:
E eu só não fiquei na mesma porque tinha Baby V. a puxar por mim e a não me deixar parar. Estarei assim dentro de 10 minutos.

29 de agosto de 2010

O perfume

Espero ansiosamente pela floração da minha dama-da-noite (nome científico, Cestrum nocturnum), comprada no Algarve este verão depois de a ter namorado o ano passado. Assim que a noite cai, e desde que esteja florida, esta planta arbustiva liberta um perfume singular, forte como nunca senti em qualquer outra flor. Espero que as gatas não descubram que, além do cheiro, gostam do sabor...

28 de agosto de 2010

Tenho andado muito calada...

... porque estou a entrar na quarta semana de férias, tenho andado pelo Algarve, Ericeira e Adraga, e ainda tenho este livrito para acabar antes de ir passar uns dias a Barcelona.

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A última vez que me lembro de ter lido uma obra de fôlego durante as férias de verão terá sido há uns 15 anos - a trilogia d’O senhor dos anéis, bem antes de os filmes aparecerem. Na altura, conheci o fantástico mundo de Tolkien; desta vez, Ken Follet tem-me ensinado bastante sobre a vida na baixa idade média, sobre a construção de catedrais, sobre o quotidiano nos mosteiros e sobre os jogos de forças entre o clero, a nobreza e o povo. Que difícil vai ser regressar ao século XXI.

28 de julho de 2010

Últimas: 21:12 - 23 fogos ativos

E, como não podia deixar de ser, vem o calor, vem o mato seco, vêm os incêndios. Causados por negligência, por vingança, por motivos económicos. Dá-me verdadeiras náuseas ver o país a arder.

26 de julho de 2010

Episódio numa noite de calor

A propósito desta canícula, o meu irmão acaba de me recordar um episódio de há muitos anos, numa noite também quente mas seguramente não tanto como a de hoje.

O meu pai, totalmente avesso a temperaturas acima dos 25 ºC, a morrer de calor, obrigou-nos a todos (à minha mãe e a nós os três) a ir dormir para a praia da Adraga, com sacos-cama e cobertores. Contado assim até parece divertido, mas na altura não foi nada: ele ia furioso, alterado pelo calor, nós cansadíssimos, sem perceber para quê aquela «birra», ninguém conseguiu dormir e voltámos para casa com ele ainda mais zangado.

De facto, quando somos crianças parece que nenhuma temperatura nos incomoda. Como o compreendo hoje em dia.

24 de julho de 2010

Wishlist #1

O museu de Lisboa onde acho que já entrei mais vezes tem pouco mais de um ano. Mas, por estar num lugar de passagem, por não se pagar entrada e por ter uma coleção em constante renovação, é uma tentação sempre que passo na rua Augusta.

O MUDE, instalado na antiga sede do BNU antes de uma adaptação definitiva a museu, expõe as obras da coleção de Francisco Capelo (o principal responsável pela seleção das peças de Joe Berardo), integradas num espaço enorme e esventrado, com um contraste incrível que por isso mesmo ganha um encanto especial. Sempre que lá vou, apetece-me levar algumas peças para casa. Uma delas é esta DCW Dining Chair, de Charles e Ray Eames, 1945:

Acabo de me aperceber que talvez um dia possa comprar uma réplica através daqui.

21 de julho de 2010

Uma história sobre Oliveiras

Era uma vez 3 irmãos*: João, Joaquim e Maria Augusta, todos nascidos em Currelos, na Beira Alta, entre o final dos anos 20 e o início dos anos 30. Todos Oliveiras.

João, devido a problemas de saúde, cedo se mudou para Lisboa, para mais perto do mar, onde foi criado pelos padrinhos. Joaquim, devido a uma discussão com o pai por causa de um pessegueiro, emigrou para o Brasil, sem nada nem ninguém. Maria Augusta ficou, com o desgosto da mãe e a zanga do pai. João e Joaquim já morreram, um em Lisboa em 1989, outro no Rio em 2006. Desde a partida para o Brasil, julgo que nos anos 50, só se viram uma vez, em Lisboa, e já praticamente sem João ter noção desse encontro. Maria Augusta era o único elo de ligação, que com o tempo se foi perdendo.

João era o pai do meu pai, o meu avô João. E desde há uns tempos que eu e o meu irmão nos interrogávamos se não teríamos primos no Brasil, talvez até parecidos connosco.

No dia 1 de Março deste ano tudo mudou. Recebi uma mensagem no Facebook, com o título «Contato familiar no Brasil». Era o neto mais velho do tio Joaquim, que andava à procura da «família portuguesa». E a partir daí os acontecimentos precipitaram-se: troca de nomes, de contactos, de mails, e agora… a vinda dele e de mais uma prima a Portugal. (Curiosidade: o Vinicius é a cara chapada do meu irmão, em moreno e mais magro…)

Nos últimos dias, descobri e apaixonei-me pela minha nova família, e abriram-se novos horizontes na minha vida. Sinto-me muito, muito feliz e sortuda por saber que tenho uns primos (todos Oliveiras) que parece que conheço desde sempre e de quem agora nos despedimos com as lágrimas a escorrer pela cara abaixo.

É só o princípio de uma história feliz.

* Sei, pelo Geneall, que houve um quarto irmão, mais velho, chamado António Gonçalo, mas os pormenores ficam por aqui.

10 de julho de 2010

Uma simbiose perfeita

Fotografia de Marcelo Hoffmann.

Há 2 anos, quando estive internada em S. José no serviço de oftalmologia para pôr as lentes intra-oculares, lembro-me de ver passar no corredor uma cega com um cão-guia à frente. Naquela situação, e com aquela ansiedade inerente e inevitável de quem vai ser operado (ainda que soubesse que a taxa de sucesso era altíssima), apercebi-me da importância de um cão-guia na vida de um cego.

Um cão-guia bem treinado evita que o dono se depare com obstáculos no chão (buracos, excrementos, degraus, poças de água…), evita os que ameaçam a cabeça do cego (como ramos de árvores), procura-lhe uma caixa multibanco ou um lugar sentado nos transportes públicos, localiza as passadeiras e o sinal verde para atravessar. E, claro, faz-lhe companhia. E fazem-se companhia um ao outro.

Em Portugal, apenas uma escola se dedica ao treino destes cães, quase todos retrievers do labrador por serem muito meigos, apegados ao dono e fáceis de educar. Na Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual os cães são treinados durante dois anos até poderem ser atribuídos a um cego. Desses dois anos, o primeiro é passado junto de uma «família de acolhimento», encarregada de socializar o cão, de o habituar a ir à rua e a conviver com outras pessoas e animais. Sempre sob a supervisão e com as instruções de um educador. Depois, é a separação gradual, um treino mais intenso e o início da relação com o futuro dono. Sublinhe-se que, em Portugal, os cães-guia não são pagos, apesar de a sua educação sair bem cara. Mas, como se costuma dizer, «é por uma boa causa»

Há dias, quando comentei com uma colega que ia escrever sobre os cães-guia, perguntou-me se estes cães não seriam meramente utilitários e pouco felizes, vivendo apenas em função do dono. Hoje, depois de ter lido mais umas coisas, respondo que não acho. Quem tem cães sabe que um cão, e sobretudo um labrador, vive em função do carinho do dono (e só assim vive feliz). E, parece-me, não há cães com mais atenção e amor do que estes. Uma simbiose perfeita.

1 de julho de 2010

Silêncio, por favor

Se tenho uma visão muito deficiente, que um dia me obrigou a colocar lentes intra-oculares, já a minha audição compensa-a em larga escala. E, se calhar por ouvir demasiado bem, eu não gosto de barulho. Em geral, de espécie alguma. Mas há certos barulhos que ouço com muita frequência e que têm o dom de me irritar ao ponto de não conseguir sequer pensar em mais nada a não ser no seu fim:

- televisão com o volume alto – em minha casa está sempre quase no mínimo; na casa dos outros, se tenho confiança acabo por pedir para baixarem o som;

- música em altos berros – se vem de casa dos vizinhos, entro numa espiral de irritação que por vezes só termina quando (delicadamente) lhes toco à porta para pedir para reduzirem o volume; em casa do meu pai (que adora ouvir música alto, apesar de ter uma boa audição) não tenho grande autoridade para a baixar;

- carros e motas a acelerar – se fosse polícia, multava todos os que ultrapassam os decibéis razoáveis permitidos por lei e que deviam ter sido controlados nos centros de inspecção automóvel;

- helicópteros – hoje em dia faz-se descolar um helicóptero por tudo e por nada: para observar o trânsito, para filmar desfiles e outros eventos, para controlar manifestações. Ao ouvir bater as pás de um helicóptero, consigo imaginar muito ao de leve o que será estar num cenário de guerra;

- crianças aos gritos – sobretudo se for a fazerem birra. E sobretudo se acompanhadas dos pais também aos gritos a dizerem-lhes para se calarem.

27 de junho de 2010

Realidade e ficção

Este verdadeiro peixe-palhaço, fotografado por David Doubilet na Papua-Nova Guiné, não podia ser mais parecido com o meu querido Nemo. E com um olhar destes, o Nemo não podia ser nada menos do que um peixe curioso.

24 de junho de 2010

Sou intolerante para com a intolerância

Acabo de saber que o jornal 24 horas vai fechar. E, por conhecer lá algumas pessoas e estar preocupada com o seu futuro, andei pelo site do Público para tentar perceber o que se passa. Deparei com a secção dos comentários e não posso deixar de me insurgir com o facto de a grande maioria aplaudir o fecho do jornal. Comentários como «Até que enfim!», «Já é tarde!», «Haja alegria!», «Não é pena» ou «Finalmente!»…

Eu também não gosto nada do estilo do 24 horas. E, por isso, não o leio. Tal como não gosto de dobrada nem de telenovelas. E, por isso, não a como nem as vejo. E gosto ainda menos de pessoas intolerantes. E, por isso, evito-as.

É bom ter liberdade de escolha. E é pena saber que uma data de gente vai perder o emprego.

Quantas palavras cabem dentro de uma palavra?

Este era um jogo que eu costumava jogar com o meu pai, não me lembro muito bem com que idade, mas certamente numa altura em que já dominava bem a língua. Não era preciso nenhuma consola, nem nenhum computador, nem mesmo um tabuleiro ou peões. Só dois pedaços de papel e dois lápis. E nem era preciso grelhas certinhas como as usadas para jogar ao STOP. Nem mais do que dois jogadores. E as possibilidades eram ilimitadas.

O mecanismo era muito simples. Pensávamos numa palavra ou retirávamo-la de um qualquer jornal ou revista que estivesse ali à mão. De preferência, uma palavra que tivesse pelo menos 3 sílabas, para dar mais hipóteses. E depois, pegando apenas nas letras da palavra, tínhamos de listar o maior número de palavras de que nos lembrássemos num período de tempo limitado. Por exemplo:

CADEIRA (1 cê, 2 ás, 1 dê, 1 é, 1 i e 1 érre): ira, eira, dar, cada, ara, ria, der, dera, dica, cara, cera, cair, ar, ir, dera, dia, ida, rei…

Hoje já há uma série de aplicações online e no iPod com este jogo. Mas na altura não havia. E nós, mesmo assim, jogávamo-lo no mínimo todas as semanas. Hoje trabalho com letras e com palavras. E jogo-o no meu iPod.

23 de junho de 2010

True love

Uma imagem de uma beleza extrema. Um amor verdadeiro só separado pela morte.


Crédito: Diário de Notícias.

18 de junho de 2010

Apagou-se mais uma das minhas velas

Bem sei que grande parte dos blogues deste país devem ter hoje José Saramago como tema. Mas eu não seria eu se o meu também não o homenageasse.

Se há 2 semanas sofri com a morte de João Aguiar, hoje sofro com a morte de Saramago, mais um escritor que faz parte da minha vida e das minhas referências. E dou por mim a pensar que, dos meus escritores de eleição da literatura portuguesa, dos que me faziam mal dormir para ir comprar o último livro publicado, já nenhum está vivo: Vergílio Ferreira morreu a 01.03.96, João Aguiar a 03.06.10 e José Saramago a 18.06.10. Todos grandes escritores, todos grandes homens, todos seres humanos integrais.

De Saramago me ficam muitos livros fantásticos, de uma imaginação sem limites e sempre reflexo de um grande humanismo. Três autografados e tantos outros que nunca lhe vão passar pelas mãos.

Recordo um tópico que escrevi aqui no blogue sobre A viagem do elefante em Dezembro de 2008. Tópico em que dizia que se me formava «um nó na garganta e um aperto no peito só de imaginar que um dia poderá não haver mais elefantes a viajar pela minha imaginação».

Hoje é o dia.

17 de junho de 2010

Manifesto

Eu, Vespinha, me confesso: gosto de jogar Farmville.

Gosto de escolher o que vou semear, de esperar para ver as sementes a medrar, de comprar e vender animais da quinta, de fazer colheitas e tirar leite às vacas, de apreciar a perfeição de certas peças, frutos e legumes, de treinar os meus cães virtuais, de fertilizar os campos dos meus vizinhos, de lhes oferecer presentes e receber outros em troca. E também gosto de regar as minhas plantas verdadeiras, de lhes arrancar as ervas daninhas, de escovar, alimentar e mimar as minhas gatas de carne e osso. Mas também gosto do Farmville. E uma coisa não interfere com a outra.

So what?

16 de junho de 2010

Mudam-se os tempos...

Eu, que há 2 anos não podia ver estas sandálias à frente, agora estou apaixonada pelas minhas... Comecei a olhar para elas duas vezes, depois a achar piada às que tinham padrões, e depois às simplesmente coloridas. Estas são «peridot green», com brilho envernizado. E ficam o máximo depois de calçadas.

12 de junho de 2010

Roma - 7, Lisboa - 9

Já regressei há 3 semanas, mas precisei de algum tempo para me ajudar a combater o deslumbramento/desapontamento da minha viagem a Roma. Porque tenho a certeza de que se tivesse escrito logo teria sido muito mais mázinha.

Tinha estado em Roma há talvez uns 15 anos e não tinha gostado, julgava que pelo choque de ali aterrar vinda de Veneza e Florença. Por isso voltei, agora só a Roma e durante uma semana, para não haver termo de comparação.

Mas comparo-a, é inevitável. Com Lisboa.

As esplanadas: 1-0
Os romanos sabem tirar partido de qualquer cantinho ao ar livre. Qualquer bocado de passeio serve para estender uma esplanada, e se não houver passeio passa para a estrada.

A limpeza das ruas: 0-1
Beatas, papéis, sacos do lixo abertos, ausência de caixotes do lixo, Roma é uma cidade suja. Em pleno centro, andei mais de 15 minutos (o equivalente a cerca de 1 km) com um papel na mão até encontrar um caixote para o deitar.

Os gelados: 1-0
Geladarias por todo o lado, sabores escolhidos ao dedo (o de Baci é fenomenal) e preços que põem os senhores do Santini e da Häagen Dazs a um canto. Pagava por duas bolas generosas o que cá pago por uma mirradinha.

As igrejas: 1-0
Ainda não tive coragem de entrar numa igreja em Lisboa depois de voltar. Porque acho que me vou sentir muito pobrezinha.

O trânsito: 0-1
Em Roma é caótico, como já previa. Os peões atravessam onde calha e, surpreendentemente, conseguem sempre passar. As scooters parecem enxames (infelizmente, as Vespas já não dominam, foram ultrapassadas pelos modelos japoneses) e conseguem o respeito dos carros. É difícil encontrar carro ou mota sem riscos, amolgadelas ou para-choques presos por cordéis.

A comida: 1-1
Pizas, massas, risotto, mozarela, tomate… Quem disse que a comida italiana engorda? A verdade é que comi à grande, por pouco dinheiro, e voltei com o mesmo peso. E a verdade também é que em Roma não vi obesos.

A simpatia: 0-1
De um modo geral, os romanos pouco se importam com o próximo. Se nos cai uma coisa ou chão, se nos atrapalhamos com uma expressão... who cares? Mas há excepções. Como duas ou três pessoas que nos deram indicações sem lhes pedirmos e a família do restaurante Santi, não esfuziante mas com uma simpatia discreta que nos fazia sentir em casa.

A ladroagem: 0-1
Há muitos e ainda por cima são cobardes, porque os carteiristas «atacam» no metro e em hora de ponta. Ao meu pai quem roubou a carteira foi uma mulher, apesar de não o termos conseguido provar. Três dias depois voltámos a cruzar-nos com ela num autocarro.

As ruínas: 1-0
Roma bate todos os recordes, tudo é grandioso, tudo é enorme, tudo é esmagador. O coliseu, os fóruns, o teatro de Marcelo, os mercados de Trajano, as termas de Caracala.

O rio: 0-1
O Tibre atravessa toda a cidade, bem perto da zona central, mas a cor das suas águas (castanho, faça chuva ou faça sol) transmite tristeza e mostra que os romanos não lhe dão a importância e o valor que podiam dar.

O sossego: 0-1
Os turistas não deixam Roma em paz. Andam em bandos, em hordas, japoneses e não só. A Piazza Navona, a Fonte de Trevi e a Praça de Espanha, mal as consegui ver. Tive a sorte de levar boas dicas para explorar bairros e atracções menos concorridos.

O planeamento urbano: 0-1
Pareceu-me que em Roma não existe. Os carros andam e estacionam por onde calha, as scooters ainda mais. Os peões, esses, vão para a estrada ou por onde conseguirem passar. Os passeios são estreitos, sujos e esburacados.

As fontes: 1-0
São tantas, e tão grandiosas, que aquelas que estão ao nível das nossas passam completamente despercebidas. Há fontanários de água fresca e potável por todo o lado e, em Roma, a venda de garrafas de água não deve ser um negócio muito lucrativo.
O Papa: 1-1
Ah pois é, aqui houve empate. Porque se não fui ver o Papa em Lisboa, fui vê-lo a Roma, onde por sorte assisti a uma missa inteirinha ao ar livre a elogiar e a falar da visita a Portugal.

As maiores surpresas: os mercados de Trajano, o gueto, o Trastevere, o Aventino, as basílicas, o Panteão, o Coliseu e os fóruns.

As maiores desilusões: a Capela Sistina (onde a multidão e os guardas constantemente a pedir silêncio não nos deixam estar em paz ), a Piazza Navona (muito descaracterizada com estruturas montadas pelo meio e gente que nunca mais acaba), o Castel Sant'Angelo (onde dei €8 para entrar, com os interiores muito descuidados e umas exposições miseráveis) e a desmistificação das Vespas reluzentes e coloridas por todo o lado.

Lisboa ganha, se não na perspectiva dos turistas com tantas coisas grandiosas para ver, pelo menos na minha. A que avalia a qualidade de vida.

11 de junho de 2010

É inédito, saiu hoje e já é meu

Grande surpresa tive hoje à hora de almoço, quando o meu irmãozinho me ligou a dizer que tinha uma coisa para me dar. Quando eu julgava que me ia aparecer com uma guloseima, tipo travesseiros da Piriquita ou pastéis de Belém, ofereceu-me algo ainda maior, porque com muito mais valor e inesperado.

Leitora apaixonada desnaturada, nem sequer sabia que estava para sair o único romance inédito do espólio de Vergílio Ferreira, Promessa, escrito em 1947.

Um dia, em Conta-corrente, Vergílio Ferreira escreveu: «Se um artista não quer que se lhe conheça a obra, destrua-a ele.» E se não destruiu este inédito antes de morrer, aos 80 anos, é porque não se importava que fosse publicado. Fico-lhe agradecida. A ele e ao meu irmão.

9 de junho de 2010

Tudo é relativo

Um promotor de um qualquer produto ou serviço à saída das caixas de pagamento do Continente, com um folheto na mão:
- Posso oferecer-lhe um pouco do meu tempo?

E eu que julgava que ele queria o meu...

Como Deus manda, de Niccoló Ammaniti

Tenho lido muito ultimamente, e tenho-me esquecido de vir aqui relatar o quê, mas este não posso deixar de recomendar. É violento, muito. Bastante cheio de palavrões também. Mas intenso como há muito tempo não me lembrava de ler algo, daqueles livros que me fazem resistir ao sono e, de manhã, ansiar pela hora de voltar a casa para continuar a ler. Com um ritmo rápido, com personagens agressivas mas humanas, capaz de me provocar riso, ternura e repulsa ao mesmo tempo. Um daqueles livros que, ao ler, imaginava em filme. Que entretanto descobri que já há.

Em resumo: numa pequena cidade italiana, um rapaz de 13 anos mora sozinho com o pai, um desempregado neonazi que vive de biscates, depois de a mãe os ter deixado. O pai tem dois amigos, um com problemas mentais e neurológicos obcecado por uma personagem de um filme porno, e outro também abandonado pela mulher depois de a filha ter morrido com uma tampa de champô entalada na garganta. Todos desempregados que um dia planeiam roubar uma caixa multibanco. Só que na noite combinada cai um temporal daqueles, que muda tudo.

Eu sei que parece tudo um bocado exagerado e até «faca na liga». Mas ao ler Como Deus manda, de Niccoló Ammaniti, parece tudo extremamente real. Tal como na vida real, as coincidências acontecem. E, tal como na vida real, muitas vezes as personagens sentem simultaneamente amor e ódio pelo próximo.

Ganhou o Prémio Strega, o mais importante prémio literário em Itália, onde a produção literária é muita e boa. Prémio também já atribuído a escritores como Alberto Moravia, Primo levi, Sebastiano Vassalli, Sandro Veronesi e Umberto Eco. Acho que não é preciso dizer mais nada.

3 de junho de 2010

Perdemos João Aguiar

Há cerca de 13 anos, andava eu no curso de jornalismo do Cenjor, um dos trabalhos que tínhamos de fazer eram jornais e revistas diários e semanais, um bocadinho a sério e um bocadinho a brincar. Para uma dessas «edições» quis entrevistar João Aguiar, um dos meus autores preferidos na altura e cujos livros ainda hoje compro logo que saem(saíam).

Já não sei muito bem através de que artimanha, mas alguém do Jornal de Letras deu-me o contacto do escritor. Lembro-me de estar no meu quarto, com o meu telefone vermelho (sim, eu tinha uma extensão do telefone lá de casa no meu quarto...), nervosa antes de marcar o número. Liguei-lhe para um fixo e João Aguiar logo se dispôs a receber-me em sua casa.

Era algures para os lados de Oeiras, recebeu-me numa sala com uma grande janela e muitos livros, e durante umas duas horas fiz-lhe perguntas sobre a sua escrita. De A voz dos deuses, o primeiro que li, até A encomendação das almas, num registo totalmente diferente. Um gato preto passeava pela casa, com um nome africano de que já não me recordo. João Aguiar recebeu-me com toda a humildade e com toda a simpatia, e respondeu-me a tudo o que lhe perguntei para um gravador ainda dos velhinhos.

Mais tarde, em Outubro de 2006, voltei a estar com ele num curso de escrita criativa, e por brincadeira levei-lhe uma cópia da «notícia» que sobre ele tinha escrito. Por essa altura já tinha lido tudo o que tinha publicado, e continuei a fazê-lo até hoje.

E digo até hoje porque hoje João Aguiar morreu. Com 66 anos, vítima de cancro. Morreu um dos escritores portugueses mais humildes e acessíveis, alguém sempre pronto para conversar e que não tinha medo de com outros partilhar as suas técnicas e as suas ideias.

Vou ter saudades.