3 de junho de 2013

Os últimos presos do Estado Novo, de Joana Pereira Bastos

Este livro não é recomendável, este livro é obrigatório. Porque revela, através de testemunhos de pessoas que há muitos, muitos anos não conseguiam falar do assunto, as barbaridades cometidas pelos agentes da PIDE nas prisões de Caxias e de Peniche.

Para além das torturas já «habituais» e conhecidas (a do sono, a estátua, os espancamentos e o isolamento), são reveladas as torturas psicológicas, que ainda hoje marcam quem as sofreu. Impressionou-me bastante o caso de um preso, fechado numa sala onde transmitiram por altifalantes os gritos da mulher e o choro da filha, sendo-lhe mostrada de seguida uma peça de roupa ensanguentada. É perverso.

Neste livro, a jornalista do Expresso conversou com pessoas que há muito não falavam (como o arquiteto Nuno Teotónio Pereira, por exemplo), pessoas que ficaram com insónias e pesadelos para o resto da vida, pessoas que nunca mais se perdoaram por cederem à tortura e entregarem os amigos. Os últimos anos do Estado Novo foram especialmente maus, mas a angústia por que os presos passaram entre 25 e 27 de abril de 1974, enquanto continuavam presos sem saber se o golpe militar tinha sido de esquerda ou de direita (o que poderia significar a libertação ou a morte), é quase inenarrável.

PS: O livro tem uma série de outras informações que desconhecia e que me impressionaram, como o facto de um documento encontrado em Caxias revelar que 1 em cada cada 4 portugueses recebeu pagamentos por informações prestadas à polícia política. Que a História não se repita.

9 comentários:

Izzie disse...

Já li, e achei importantíssimo. Não fazia ideia que os agentes da PIDE tinham sido treinados pela CIA, por exemplo. Uma das coisas que mais me impressionou foi constatar que ainda hoje a CIA usa os mesmos métodos de tortura, em Guantánamo, por exemplo. Terrível e essencial.

Vivi disse...

Completamente de acordo. Também já li e gostaria que os filhotes o lessem. Eu ainda sou desse tempo.
Bjs
Boa semana.
Vivi

Anónimo disse...

E nao so.
Se vos contar que aos 18 anos,fui levado para a esquadra de policia,por ter beijado num banco de jardim a namorada,voces acreditam?

Vespao

Smelly Cat disse...

Não li, mas faço questão de o fazer. Há coisas que não podem ser esquecidas sob o risco de voltarmos a cair nelas...

Alexandra disse...

Vou ler com muito empenho. Trabalho no Museu Militar do Porto que funciona no edifício da antiga PIDE no Porto. Aqui, com os visitantes, temos sempre a preocupação de falar das várias funções da casa ao longo do tempo em particular no período da PVDE/PIDE/DGS. Por vezes fazemos visitas orientadas, nesse sentido, algumas com o apoio de antigos presos, a espaços da casa que normalmente não são visitáveis (porque são hoje áreas onde funcionam serviços museológicos). Que não mais se volte a um regime assim. Alexandra Anjos

Vespinha disse...

Fico desde já muito satisfeita por ver tantos comentários a um livro. É porque o seu conteúdo é mesmo importante e porque tanta gente é sensível a coisas destas não se repetirem.

(Publico por vezes tópicos sobre livros, mas é raro ter comentários, sobretudo como estes que trazem também pequenas histórias de vida...)

jão disse...

antes morrer livre, que viver sujeito

JB disse...

Sem dúvida. E é incrível, face à quantidade de casos de pessoas presas e torturadas, como há quem ainda venha dizer «que foram casos pontuais», ou «que levavam só uns abanões e que não era nada como lá fora».

Há testemunhos impressionantes. A P. teve, numa das turmas dela do ano passado, uma pequena conferência de uma ex-presa política, torturada pela PIDE, e os alunos ficaram chocados. Infelizmente, acho que se relativiza demasiado esses tempos...

Vespinha disse...

É verdade, a memória é curta ou pouco divulgada... por isso é que acho este um livro obrigatório. :)