20 de junho de 2017

Guardas de passagem de nível, de Carlos Cipriano

Os Retratos da Fundação são sempre uma coleção em que aprendo algumas coisas. Para quem não conhece, são uma espécie de grandes reportagens em forma de livro e a um preço baixo (entre os €2,50 e os €3,50).

Este foi escrito pelo descendente de uma família de ferroviários, portanto por quem está bem dentro do assunto. E foca um dos postos mais baixos da carreira ligada aos comboios: as guardas de passagem de nível (sim, a enorme maioria são - ou, melhor, eram - mulheres), aquelas senhoras que fecham e abrem as cancelas antes e depois de os comboios passarem quando não há passagens desniveladas.

São retratadas talvez umas dezenas de mulheres, quase todas com cinquenta e muitos anos e das poucas profissionais que ainda restam em Portugal. Algumas ainda residem nas casetas, o nome que se dá às casinhas minúsculas de onde as vemos sair. Outras deslocam-se todos os dias para os seus postos. E outras, ainda, vão atrás dos seus postos. Como aquela que entra no comboio numa estação, sai noutra estação e vai rapidamente fechar a cancela umas centenas mais à frente na linha antes de o comboio que a trouxe passar, para depois a abrir e fazer o mesmo no comboio da volta. Ou outra, na linha do Vouga, que sai do comboio antes da passagem de nível, quando este abranda, faz o seu serviço e volta a entrar na composição uns metros depois.

Dei por mim com nostalgia da adolescência, quando tinha de passar por uma passagem de nível com guarda onde as pessoas se irritavam quando esperavam muito. Mal sabiam que provavelmente aquela espera lhes estava a salvar a vida. São vestígios de um mundo que vale a pena espreitar.

Nota: Podem ler sobre mais alguns destes livros aqui (Malditos - Histórias de homens e de lobos), aqui (A porteira, a madame e outras histórias de portugueses em França), aqui (Prematuros) e aqui (Na urgência).

18 de junho de 2017

Impossível não sofrer por eles

Mais de 60 pessoas como nós que devem ter tido uma das mortes mais horríveis possível. Aquela que não consigo imaginar, porque implica um grande sofrimento precedente. Temos mesmo todos de estar de luto.



13 de junho de 2017

Escrito na água, de Paula Hawkins

Depois de A rapariga na comboio, que me prendeu no livro e também no filme (coisa rara ambas as coisas me agradarem), mal pude comprei este Escrito na água (Into the water, a versão que comprei por ser metade do preço).

Numa pequena cidade britânica, uma zona do rio que a atravessa foi já palco ao longo de séculos de vários afogamentos de mulheres, uns voluntários outros não. Nel estuda o rio e os seus casos, até que um dia ela própria aparece morta nas suas águas. Dias antes, tinha deixado uma mensagem de pedido de ajuda no gravador de mensagens da sua irmã Jules. Uma contradição, portanto, uma vez que tudo aponta para o suicídio sem que no entanto algumas coisas batam certo. Vai ser preciso regressar ao passado recente e longínquo para se descobrir o que aconteceu.

Se gostei do livro? Nem por isso. Achei-o aborrecido, com um ritmo lento, e com excesso de narradores assim não tão surpreendentes. Deu-me ideia de que Paula Hawkins foi quase forçada a escrever algo para dar continuidade ao êxito do livro anterior. Julgo que esteja a vender bem, mas a mim não me convenceu.

9 de junho de 2017

Balanço das minhas duas idas à Feira



O que vale é que a terceira ida será com as miúdas, portanto sem grande mobilidade para me perder de novo.

6 de junho de 2017

O estrangeiro, de Albert Camus

Depois de ler A peste, tinha de continuar a ler Albert Camus. O seguinte foi O estrangeiro e o próximo será A queda.

Este «estrangeiro» é Mersault, uma personagem que parece vazia de sentimentos. Encara a morte da mãe como algo leve, e o seu prévio internamento numa casa de repouso como algo que lhe faria bem a ela. Encara um possível casamento com a amante esporádica como algo que tanto lhe faz, que tanto podia ser com ela como com qualquer outra pessoa. E encara o crime que comete como outro ato qualquer. crime esse, aliás, que pratica sem grande motivo aparente.

No julgamento que se segue, onde quase se condena mais a atitude leviana perante a morte da mãe do que o assassínio que cometeu, Mersault não mostra sentimentos de culpa, revelando-se como um estrangeiro entre os restantes seres humanos. Pessoa estranha, este Mersault. Descrito, no entanto, numa escrita limpa, como eu gosto.

5 de junho de 2017

Pequena amostra de um dos dias mais felizes da minha vida


Ter a minha família próxima e alargada toda junta (apenas com duas baixas que estão a trabalhar lá fora) a comemorar o primeiro aniversário e o batismo da Luísa e da Maria era algo que nunca pensei ver acontecer. Só elas para nos proporcionarem um dia assim.

PS: Em breve, mais imagens dos pormenores.

3 de junho de 2017

Um ano do melhor de mim

Foi às 00h01 e às 00h02 do dia 03.06.16 que a minha vida mudou para sempre. No final do dia 2, tive fortes dores na parte de baixo da barriga e chamaram ajuda por mim. Depois disso, de nada me lembro. Sei que as bebés estavam em sofrimento, que nasceram com um Apgar baixíssimo e tiveram de ser reanimadas, que depois reagiram bem, que no dia seguinte eu estava estranha, que à noite tive falta de ar e perdi os sentidos, que pelas 3h da manhã de dia 4 estava de novo no bloco de operações a ser operada à aorta, que estive um dia e tal em coma induzido e que dei por mim no dia 6, rodeada de gente e com uma longa cicatriz no peito. No dia 9 de junho de 2016 vi, conscientemente, as minhas filhas pela primeira vez.

Os dias e semanas seguintes foram muito difíceis, tive de ter ajuda para tudo e estava praticamente incapacitada para cuidar delas, que tiveram alta no final de junho. Só em agosto comecei a ter alguma autonomia para as criar, e a partir daí foi sempre a melhorar fisicamente. Psicologicamente, estão cá as sequelas, de ter perdido a memória de uns tantos dias, de ter estado tão perto da morte no dia em que dei vida e de ter causado tanta angústia e sofirmento às pessoas que me rodeiam. Mas tenho de ultrapassar tudo e tenho sentido os progressos, com a ajuda das minhas filhas e de toda a minha família e muitos amigos.

Hoje, tenho duas bebés maravilhosas, bem-dispostas, que comem e dormem que é um regalo, que sorriem para toda a gente e que estão sempre juntas e em interação uma com a outra. Julgo que são crianças felizes.

Daqui a uma hora serão batizadas, sobretudo como um agradecimento a quem, seja que entidade for (mas que eu suspeito quem são), nos ajudou a continuarmos por aqui as três.

Meus amores, Luísa e Maria, que continuem a dar-nos tanta alegria e felicidade como dão e que eu esteja convosco por muitos e muitos anos para poder ver-vos sorrir.

Aqui, a Maria e a Luísa com 2 horas de vida.

E aqui, a Luísa e a Maria com 362 dias de vida.

2 de junho de 2017

Há um ano...

... estava eu em Santa Maria internada no 4.º piso de obstetrícia, com uma barriga gigante, a fazer testes de proteinúria, a medir a tensão frequentemente a fazer CTG de manhã e à tarde. À noite ainda jantei lasanha de atum, um dos meus pratos favoritos que um colega de trabalho me tinha levado. A partir das nove e tal da noite foi o vazio completo na minha mente, até quatro dias depois. Mal suspeitava de que dois minutos depois da meia-noite, sem o saber, já teria as duas bebés cá fora.

1 de junho de 2017

Arranha-céus, de J. G. Ballard

Só para começar: digam lá se esta capa é ou não é muito gira? E como a sinopse também prometia, fiqui a conhecer um autor que, sem o saber, tinha escrito O império do Sol e Crash. Mais dois pontos.

Este arranha-céus fica nos arredores de Londres dos anos 70 e foi pensado pelo arquiteto para ter todas as comidades integradas: lojas, piscinas, uma escola... 45 andares ao estilo das unidades de habitação de Le Corbusier. Este edifício alberga habitantes bastante heterogéneos, dos artistas e empresários que vivem nos andares superiores às famílias modestas que habitam os andares inferiores.E é aqui que começam os primeiros problemas.

Gradualmente, o ar condicionado vai deixando de funcionar, o lixo vai-se acumulando nas condutas, os elevadores param um após o outro. E, aos poucos, todos os pisos vão sendo vítimas de vandalismo por parte dos próprios habitantes. Estes, em vez de abandonarem o edifício, sentem-se presos a ele, entrando num estado de barbárie onde se vive o salve-se quem puder e onde o que interessa é a pura sobrevivência.

Um livro catastrofista mas que reflete uma boa parte da sociedade atual, não apenas pela caracterização das personagens, mas também pelas situações limite que vivem. Venham mais livros deste autor.

30 de maio de 2017

Perdidos, de Leonel Vieira

Seis amigos que não se veem há bastante tempo juntam-se num fim de semana para celebrar o 30.º aniversário de um deles: um casal com um bebé de seis meses, um casal que não é casal mas que poderia ser e um casal de passagem. A ideia é passarem dois dias no veleiro de um deles, partindo de Porto Santo.

A bordo, algumas relações são tensas, graças ao passado que não os larga, mas tudo vai correndo na normalidade até que alguém decide mergulhar em mar alto. E depois segue-se outro. E outro. Até que a mãe do bebé, que sempre teve medo da água, é também lançada à água numa brincadeira parva (o bebé não estava com ela, sublinhe-se, mas na coberta). Acalmado o susto de Ana, entra-se de repente no susto geral, quando se apercebem de que ninguém desceu a escada que lhes permitiria regressar ao veleiro. Em vão, tentam durante horas chegar lá acima, cada vez mais irritados, cansados e a perder o discernimento. Na embarcação, o bebé chora, cá em baixo os adultos discutem.

Desde cedo nos apercebemos de que aquilo vai acabar mal, só não sabemos como e quão mal. Há neste filme pormenores dispensáveis, como o estereotipo do menino rico que foi à falência e que viaja no seu veleiro pela última vez, o típico casal de recém pais em crise que a tentam disfarçar, a mulher com talassofobia mas que acede em viajar emmar alto. Mas, no cômputo geral, gostei deste filme. Porque me criou ansiedade como se eu lá estivesse, e era isso que se pretendia num filme como este.

28 de maio de 2017

The Mum

Esta coleçao de livros, How it works, é hilariante. Com um design vintage, retrata situações irónicas dos nossos dias. Escolhi algumas páginas deste The Mum para ir publicando nos próximos tempos.

26 de maio de 2017

Barrel fever, de David Sedaris

Sou fã de Sedaris, já o disse aqui várias vezes, tanto que já esgotei praticamente toda a leitura dele (faltar-me-ão dois ou três livros). Este Barrel fever (em português talvez se possa traduzir por Ressaca) é o seu primeiro livro, e talvez por isso aquele de que gostei menos. Na primeira parte, «Histórias», houve poucas de que tenha verdadeiramente gostado. Uma já conhecia de outro livro, e é das minhas favoritas, «Season's greetings to our friends and family!»

A segunda parte, mais pequena, são quatro ensaios com base na experiência própria do escritor, e esses já os conhecia todos, mas não pude deixar de me rir de novo. Um deles é aquele em que Sedaris trabalha como duende num Natal no Macy's, «Santaland diaries», e já o tinha referido aqui. Os restantes fui-os encontrando noutros livros.

Em suma, não recomendo para quem nunca tenha lido nada do escritor, porque há tanta coisa tão boa que não vale a pena começar por um que deveria ficar para os restos, como eu fiz.

25 de maio de 2017

O novo Supergel

Lembram-se do Supergel, aquela pasta meio transparente com cheiro a petróleo que vinha numa bisnaga e que tirava todas as nódoas? Pois agora a minha mãe deu-me a conhecer outra maravilha, esta com a vantagem de não cheirar mal e de poder ser colocada na máquina de lavar a roupa. Chama-se KH7 e até agora tirou-me nódoas mesmo de tudo (vinho, sangue, cocó - das bebés, entenda-se...).

Nota: Também existe em versão para tirar gorduras na cozinha, desincrustar calcário, limpar motores, limpar vidros...

24 de maio de 2017

Ser mãe de gémeas é... #34

... assistir ao acordar mais alegre de sempre, ainda por cima em dose dupla, em que duas mãozinhas se tentam tocar através das camas de grades no meio de guinchos e gargalhadas.


22 de maio de 2017

Eu que nunca me casei...

... vejo-me agora a tentar organizar um batizado e dois aniversários sozinha. Tratar das coisas na igreja e tentar gerir as compatibilidades para se ser madrinha ou padrinho. Procurar um local agradável mas que não me leve à falência e ter de escolher o menu. Organizar as mesas e dar-lhes um nome. Pensar na decoração do(s) bolo(s). Escolher a roupa e os sapatos das minhas duas patuscas. Escolher a minha roupa. Fazer os convites e recolher as moradas de toda a gente para que fossem entregues «à moda antiga». Escolher quem irá fotografar. Imaginar o que poderei fazer para marcar o dia nas recordações dos convidados. E saber que alguma coisa importante me vai escapar.

Mas valerá a pena. Celebrar no mesmo dia o batismo, um ano de vida e o início do processo que me salvaria a vida é algo que não poderia ser feito de ânimo leve.

18 de maio de 2017

Ter um Bordallo ao preço da chuva

Para quem quer ter umas peças de louça de Bordallo Pinheiro ou oferecer uma peça bem portuguesa sem gastar muito dinheiro, a empresa lançou agora uns ímanes amorosos de €6 a €28 que são bem catitas.

Ora vejam:

Podem ser comprados online aqui.

17 de maio de 2017

Ser mãe de gémeas é... #33

... entrar num centro comercial já com duas fraldas sujas na mão, que tive de mudar no estacionamento no porta-bagagens do carro.

11 de maio de 2017

Canção doce, de Leila Slimani

Precisam de um livro que vos agarre bem a sério e que à noite vos obrigue a dormir um pouco menos para ler um pouco mais? É este. Sessenta páginas por noite foi a minha média (hoje em dia só consigo ler já depois de me deitar), o dobro ou o triplo do que costumo ler.

Leila Slimani é uma jovem escritora franco-marroquina (tem apenas 35 anos) que, com este Canção doce, ganhou o Prémio Goncourt 2016, que premeia livros de que gosto quase sempre.

Este livro começa pelo final, pelo assassínio de duas crianças pela ama que cuidava delas. Mas já sabendo o final, vamos querer saber o que levou a ele, e aqui deparamo-nos com Louise, uma mulher praticamente sem vida própria que se agarra à vida das pessoas para quem trabalha. À medida que as páginas avançam, Louise vai-nos sufocando cada vez mais através da sua intromissão naquela família que a ela recorreu para que a mãe possa ser também uma profissional.

Não é um livro policial, nem um thriller, mas antes uma análise à vida dos nossos dias, em que trabalhar e ter filhos se torna um desafio e que nos leva a tomar decisões que nem sempre são as melhores. Gostei muito.


9 de maio de 2017

Ser mãe de gémeas é... #32

... preparar a roupa no dia anterior para elas vestirem, não preparando a minha. E, ao chegar à escola, dizerem-me que o que visto está a combinar com elas. É recorrente e inconsciente, garanto.