16 de novembro de 2018

Touradas: em que ficamos?

Primeiro aparece uma proposta no Orçamento de Estado que prevê uma descida do IVA para os espetáculos culturais, com exceção das touradas. Entretanto, vem a bancada parlamentar do PS propor uma alteração ao OE: que afinal o IVA das touradas baixe também. Por fim, surge o Primeiro-Ministro a declarar que não concorda com esta proposta do seu próprio partido, e que a desconhecia.

Trate-se de questões culturais, civilizacionais, fiscais ou outras que tais, espero que não deem o dito pelo não dito e que se fiquem pela primeira proposta. Queremos ou não progredir como país humanista?

Esquadra de polícia, de Susana Durão

Julgo que este é o livro de que menos gostei de todos os que li da Fundação. O ponto de partida é interessante: conhecer como funciona uma esquadra de polícia, como se organiza, quem a preenche. Mas, talvez por partir de uma tese escrita há mais de 10 anos, falta-lhe fluidez, está carregado de frases e vocabulário complexo, por vezes foge do objetivo.

É óbvio que trabalhar numa esquadra deve ser muito desgastante, mas será tudo mau? É o que parece, pois não há um depoimento positivo. E porque ocupar talvez um décimo do livro a explorar a violência doméstica a propósito de um caso quando poderia haver tantas outras situações para também relatar? (a propósito, a Fundação até tem um livro exclusivo sobre a violência doméstica, «Em nome da filha», por sinal bem mais objetivo e interessante).

Cansei-me a lê-lo, não o senti como uma reportagem do mesmo modo que senti os outros da coleção. Vou agora passar a um sobre os tribunais, espero lê-lo com mais entusiasmo.

15 de novembro de 2018

«Enjoadinho», de Vinicius de Moraes


Filhos... Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los...
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem shampoo
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

14 de novembro de 2018

Mais uma vez, o meu obrigada ao SNS


Depois de o Serviço Nacional de Saúde, via Hospital de Santa Maria, ter salvado a minha vida e a das minhas filhas há dois anos e meio, chegou a vez de o mesmo acontecer com a minha Mãe, via Hospital Amadora Sintra (vulgo, Fernando Fonseca).

Há 4 semanas, no dia 18 de outubro, levei a minha Mãe às urgências, na sequência de uma cólica renal que não lhe passava e que estava a causar vómitos e febre alta. O diagnóstico foi relativamente rápido, uma pielonefrite, infeção nos rins causada por uma pedra que bloqueou a passagem da urina pelo ureter. Ela ficou de imediato internada e no dia seguinte foi submetida a uma intervenção cirúrgica para «desentupir» o canal.

Só que a infeção já se tinha generalizado, causando uma septicemia, o que na minha Mãe, que tem uma saúde frágil, a colocou em estado muito crítico. Foram dias muitos duros nos cuidados intensivos, rodeada de máquinas e cheia de tubos que dela saíam e entravam. Em todos esses dias houve sempre médicos atenciosos que falaram connosco, explicando-nos tudo em linguagem acessível, numa perspetiva realista mas não derrotista.

Muito devagar, de dia para dia, revelaram-se pequenas melhorias, muito pequeninas mas que nos davam uma enorme esperança. Melhorias graças às excelentes equipas que a seguiram, ao espírito positivo de tantos e tantos amigos cá fora e à enorme força de vontade que ela tem.

Passou depois para os cuidados intermédios e finalmente para a enfermaria de Urologia, onde a equipa de enfermagem se revelou portadora de elevado sentido de humanismo. Motivo de queixa, um ou outro auxiliar que, se calhar mais cansado, não tinha paciência nem tato para com os doentes. De resto, nada a apontar.

Mais uma vez pude comprovar na minha própria vida que tenho sorte de viver num país em que o Serviço Nacional de Saúde ainda funciona quando precisamos mesmo, mesmo dele. As urgências podem estar num caos, mas quando o caso é grave nada fica por fazer.

Obrigada a todos.

13 de novembro de 2018

Lost on planet China, de J. Maarten Troost

Não sou uma grande leitora de livros de viagens, por isso não tenho termo de comparação. Mas gostei bastante deste.

Em primeiro lugar, porque foi escrito por um não especialista, isto é, por alguém que se preparou minimamente, que transmite informações interessantes sobre o povo e a cultura, mas nada de muito aprofundado, o suficiente para nos despertar o interesse. Troost é um excelente observador, e com um grande sentido de humor (só tenho pena de não ter percebido todas as piadas por estar a ler o livro em inglês) consegue descrever com minúcia e graça aquilo por que passa.

Em segundo, porque nos consegue provar que a China consegue ser mesmo quase um planeta, dada a diversidade de pessoas com quem contactou, coisas que viu e ambientes em que viveu. Através dos seus olhos, respiramos ar ultrapoluído, vemos paisagens de cortar a respiração, provamos coisas que antes nem me atreveria a imaginar, conhecemos pessoas que só poderiam mesmo existir noutro planeta.

A área geográfica abrangida é muito vasta, visitando as maiores cidades, muitas aldeias, indo ao Tibete e até quase tendo de colocar o pé na Coreia do Norte. Contrastes enormes unidos no entanto por um denominador comum: a sede de desenvolvimento e de crescimento, que tantas vezes se vira contra o património chinês.

Viajei, aprendi e diverti-me. Só preferia tê-lo lido em português.

12 de novembro de 2018

Cumplicidade

Cena: Chegamos a casa e as miúdas correm para o quarto, como é hábito, para irem brincar. Poucos minutos depois aparecem-me na cozinha totalmente lambuzadas até ao cabelo de creme de muda de fralda, que para quem não sabe é extremamente peganhento e pastoso. Levo-as para a casa de banho para as despir e enfiar debaixo de água, mas antes paro e pergunto-lhes:
- Quem é que foi buscar o creme?
(Silêncio e caras muito sérias e comprometidas.)
- Quem é que foi buscar o creme?
(Silêncio, caras ainda mais sérias e nem uma troca de olhares entre ambas.)
- Luísa, foste tu? (Porque já sei que é quem costuma fazer este tipo de coisas.)
- Tim. (= Sim.)
E assim foram para o banho sem muito mais conversas. Aquilo tinha chegado para as pôr em sentido.


Conclusão: Um misto de medo, por já se começarem a encobrir uma à outra, e de orgulho. Da Maria, por não ter feito queixas da irmã. Da Luísa, por ter confessado sem tentar sacudir a água do capote. Isto promete.

9 de novembro de 2018

Em Berlim, duas datas que vale a pena recordar

Há 80 anos, em 1938: a Kristallnacht (Noite de cristal), quando mais de mil sinagogas e centenas de estabelecimentos de judeus foram destruídos, quase cem judeus foram espancados até à morte e mais de  20 mil levados para campos de concentração. Era o início da «solução final».


Há 29 anos, em 1989: a queda do Muro, construído em 1961, símbolo da bipolarização do Mundo durante a Guerra Fria. Era o início da Alemanha unida e de um Mundo mais livre.


8 de novembro de 2018

Em pausa

Venho aqui só para justificar que esta pausa que dura já há 3 semanas se deve a problemas de saúde familiares (felizmente já em remissão) e a outros do dia a dia que me têm impedido de publicar coisas interessantes.

Prometo regressar assim que a minha cabeça esteja mais livre para voltar a merecer o vosso interesse.

22 de outubro de 2018

Fogos, de Raymond Carver

Este livro encontra-se dividido em três partes muito distintas.

Na primeira parte, «Ensaios», percebi finalmente porque Raymond Carver não se aventurou num romance, ficando-se sempre pelos contos, além de ter ficado a conhecer as suas raízes e as suas inspirações.

A segunda parte é exclusiva para «Poemas», logo, a de que menos gostei. Apesar de não saber ser apreciadora de poesia, li algumas coisas interessantes, mas não o suficiente para lhes prestar mais atenção.

A terceira parte, «Narrativas», contém aquilo que já conheço de Carver: histórias não necessariamente com uma conclusão, mas episódios da vida de pessoas mais ou menos normais com vidas na mesma linha. Na sua linguagem certeira e limpa, como sempre.

Valeu a pena ler este livro para compreender um bocadinho mais toda a obra do escritor.

18 de outubro de 2018

E Barcelona continua... Barcelona

Ainda não falei aqui da minha viagem «do ano», aquela que faço por esta altura graças à minha Mãe, que tem a coragem e a generosidade de ficar com as miúdas.

Desta vez fui com o meu Pai, para recordar outras viagens que fizemos há anos e porque ele é boa companhia e tem  muita pedalada. Há oito anos que não ia à cidade e é impressionante as coisas novas que descobri apesar de já lá ter estado uma meia dúzia de vezes.

O que me impressionou mais, para o bem e para o mal:
- Casa Vicens - o primeiro projeto de Gaudí e o último a ser recuperado e aberto ao público, há cerca de um ano. Um encanto que mistura modernismo com a cultura oriental.


- Hospital de Sant Pau (complexo modernista) - projetado por Lluís Domènech i Montaner e construído entre 1905 e 1930, hoje parece saído de um conto de fadas. Composto por vários pavilhões, alguns visitáveis, foi até há bem pouco tempo um dos principais hospitais de Barcelona. A visita vale muito a pena.


 - Comida boa e (relativamente) barata - basta sair um pouco do centro para encontrar tapas e pinxos a preços ótimos que nunca nos deixam com a barriga vazia.

- Palau de la Música Catalana - já lá tinha ido a um concerto mas desta vez fui a uma visita guiada. Além de ter visto maravilhas, fiquei a saber que para ir a um concerto é preferível ficar lá para cima e para trás, onde se tem uma visão mais global da sala.


- Parc d'Atraccions Tibidabo - infelizmente durante a semana só a parte panorâmica está aberta, mas é suficiente para ter uma vista brutal sobre a cidade e para matar um bocadinho as saudades de um parque de diversões. Não poder andar na montanha-russa foi a minha pedra no sapato.



 


- La Boquería - é sempre incontornável, este mercado. Pelos fabulosos sumos ao preço da chuva e pelas fantásticas sanduíches de presunto e queijo manchego da La Torna.


- Gente miserável - não falo de pedintes nem de sem-abrigo, mas de gente em estado mesmo miserável, transparente ao olhar e que por ali anda com uma dignidade abaixo de um animal.

- Bairro de Santa Catarina - do outro lado da Via Laietana, um bairro onde nunca tinha ido e que faz com que o Bairro Gótico pareça a Quinta Avenida. Ruas estreitíssimas e labirínticas, que poderiam ser encantadoras se não estivessem tão maltratadas e com urina por todo o lado.


- Manifestações independentistas - por acaso estava em Barcelona no 1.º aniversário do referendo, o que deu para presenciar várias manifestações, milhares de pessoas de todas as idades a lutar por autonomia. Mas nos outros dias, as bandeiras da Catalunha estão por todo o lado, e os lacinhos amarelos são uma constante nas lapelas.


- A moda das trotinetas - parece que entretanto já chegou a Lisboa através da Lime (a preços astronómicos), mas em Barcelona parece-me algo que não é novo, tendo em conta a quantidade de gente que se desloca de trotineta elétrica. Às centenas.

- As pequenas surpresas que estão sempre à espreita.
 


 


17 de outubro de 2018

Quem quer uma mobília de quarto?

É da minha mãe, que já não precisa dela. Encontra-se em Alfragide e estamos a vendê-la por €100, em bom estado e com colchão incluído (embora a maioria das pessoas prefira mudá-lo).

Eis os pormenores:
- cama - 140 x 200 x 60 cm
- 2 mesas de cabeceira com 2 gavetas cada - 48 x 38 x 60 cm
- cómoda com 3 gavetas - 105 x 46 x 90 cm
- espelho - 50 x 80 m



Acabadora, de Michela Murgia

Numa época em que tanto se debate sobre eutanásia, este livro fala-nos de uma «acabadora», Ti Bonaria, que numa vila da Sardenha dos anos 50 ajuda quem está quase no fim a atingi-lo mais depressa. Tudo feito de modo discreto, mas na verdade do conhecimento de toda a gente. Menos da sua «filha de alma», Maria.

Uma «filha de alma» era no fundo uma criança adotiva, cedida por uma família com dificuldade a outra que a pudesse criar. Aos seis anos, Maria passou a ter como mãe Ti Bonaria, crescendo junto dela e aprendendo graças a ela a ter a profissão de costureira, fugindo de uma vida miserável. Cresce sem nada lhe faltar, apenas estranhando as ausências esporádicas noturnas da mãe.

Mas um dia a verdade vem ao de cima, e Maria precisará de anos para conseguir compreender que há coisas que, mesmo que não queiramos, têm de ser feitas.

Um livro pequenino mas que com uma linguagem muito bem escolhida e poética consegue abordar um assunto delicado e ao mesmo tempo retratar a vida numa pobre vila italiana do pós-guerra. Um tempo de leitura bem passado.