20 de setembro de 2019

Desafio de escrita dos pássaros #2

O amor e um estalo (ou, para mim, o amor é um estalo)

Foi já há largos anos, mas recordo essa noite como se tivesse sido ontem. Estava já deitada, ele ainda não tinha chegado, mais uma vez atrasado no trabalho, ou não. Na escuridão do quarto, já deitado ao meu lado, sem coragem de me olhar nos olhos, disse-me que era o fim. O pai precisava dele, já não gostava de mim, e queria abrir caminho aos dois para refazermos a vida como quiséssemos. Não queria que perdêssemos mais tempo.

Nessa noite ainda ficou em casa, dormiu como sempre, enquanto eu, de olhos abertos, ainda pensava que vivia um pesadelo, com a ajuda do escuro da noite. De manhã saiu, para fazer qualquer coisa prática, e eu saí logo de seguida, numa fuga daquela realidade.

Só voltei a vê-lo uns dois meses depois, cumprimentou-me como se nada fosse, bem-disposto e sorridente, novamente acompanhado embora nunca mo confessasse.

O amor da minha vida deu-me um estalo, um estaladão, e depois mais outro, e tantos outros depois disso. Estalos sem mão, que são os que doem mais e que marcam para sempre.

18 de setembro de 2019

SNS: Nunca me cansarei de agradecer

Há 40 anos e 3 dias, foi criado o Serviço Nacional de Saúde. Há 3 anos, 3 meses e 106 dias, o Serviço Nacional de Saúde salvou a minha vida e a de uma das minhas filhas.

Nunca me cansarei de agradecer:

https://www.publico.pt/2019/09/14/sociedade/noticia/dia-gerei-vida-confrontada-morte-sns-devolveunos-vida-hoje-1886411?fbclid=IwAR3AhDrN4zaP5JyrG_yi-YTX_ZMtq-u3hB463EZadsv08eZFL-Adv3ftoP4

17 de setembro de 2019

Os tablets, sempre os tablets


Eu sei que isto é uma batalha perdida, mas tenho de insistir na impressão que me faz ver cada vez mais crianças agarradas aos écrãs.

Nas férias no Algarve, no restaurante, em cada três mesas com crianças, duas tinham os miúdos com os olhos vidrados num tablet ou num telemóvel, mexendo apenas a boca regularmente para os pais lhes enfiarem a comida pela boca abaixo. Miúdos a partir dos seis ou sete meses nisto, enquanto os pais faziam a sua vida como se nada fosse.

Quantos mais estudos é preciso divulgar mostrando o mal que isto faz sobretudo aos mais pequenos, ao nível da motricidade, da visão e do próprio raciocínio e desenvolvimento da capacidade de se entreterem?

13 de setembro de 2019

Desafio de escrita dos pássaros #1


Tema: Problemas, só problemas

Este tema não podia vir mais a propósito.

Há semanas que me queixo da minha filha Maria, que desde que começou as férias me acorda quatro e cinco vezes por noite só porque quer um beijinho. As noites e as sestas têm sido um martírio, e eu quase que amaldiçoo a miúda por aquelas chamadas noturnas. Não há pesadelos, não há chichi para fazer, há somente um beijinho por dar.

Pois esta semana a Maria ficou doente, com algo do trato respiratório que lhe tem causado febre, pieira e uma grande prostração, e por vezes nem de dia ouço a sua voz. Sei que lhe vai passar, pois está medicada e é uma questão de tempo.

Mas a moral da história é que por vezes os problemas que dizemos ter são apenas problemazinhos, ou nem isso são. Problemas, problemas a sério, é ter filhos ou familiares doentes, com doenças crónicas ou terminais que nenhuma noite de sono, mesmo que intermitente, nos deixam ter.

Há que relativizar.

10 de setembro de 2019

E os nossos livros, quando morrermos?

Texto de António Cândido (1917-2018), um dos maiores intelectuais brasileiros, sobre o lamento da sua biblioteca aquando da sua morte.

O pranto dos livros
Biblioteca e escritório de António Cândido na sala do seu apartamento em São Paulo.
Morto, fechado no caixão, espero a vez de ser cremado. O mundo não existe mais para mim, mas continua sem mim. O tempo não se altera por causa da minha morte, as pessoas continuam a trabalhar e a passear, os amigos misturam alguma tristeza com as preocupações da hora e lembram de mim apenas por intervalos. Quando um encontra o outro começa o ritual do «veja só», «que pena», «ele estava bem quando o vi a última vez», «também, já tinha idade», «enfim, é o destino de todos».

Os jornais darão notícias misturadas de acertos e erros e haverá informações desencontradas, inclusive dúvida quanto à naturalidade. Era mineiro? Era carioca? Era paulista? É verdade que estudou na França? Ou foi na Suíça? O pai era rico? Publicou muitos livros de pequena tiragem, na maioria esgotados. Teve importância como crítico durante alguns anos, mas estava superado havia tempo. Inclusive por seus ex-assistentes Fulano e Beltrano. Os alunos gostavam das aulas dele, porque tinha dotes de comunicador. Mas o que tinha de mais saliente era certa amenidade de convívio, pois sabia ser agradável com pobres e ricos. Isso, quando se conseguia encontrá-lo, porque era esquivo e preferia ficar só, principalmente mais para o fim da vida. Uns dizem que era estrangeirado, outros, que pecava por nacionalismo. Era de esquerda, mas meio incoerente e tolerante demais. Militava pouco e no PT funcionou sobretudo como medalhão. Aliás, há quem diga que teve jeito de medalhão desde moço. Muito convencional. Mas é verdade que fugia da publicidade, recusava prêmios e medalhas quando podia e não gostava de homenagens. Contraditório, como toda a gente. O fato é que havia em torno dele muita onda, e chegou-se a inventar que era uma «unanimidade nacional». No entanto, foi sempre atacado, em artigos, livros, declarações, e contra ele havia setores de má vontade, como é normal. Enfim, morreu. Já não era sem tempo e que a terra lhe seja leve.

Mas o que foi leve não foi a terra pesada, estímulo dos devaneios da vontade. Foi o fogo sutil, levíssimo, que consumiu a minha roupa, a minha calva, os meus sapatos, as minhas carnes insossas e os meus ossos frágeis. Graças a ele fui virando rapidamente cinza, posta a seguir num saquinho de plástico com o meu nome, a data da morte e a da cremação. Enquanto isso, havia outros seres que pensavam em mim com uma tristeza de amigos mudos: os livros.

De vários cantos, de vários modos, a minha carcaça que evitou a decomposição por meio da combustão suscita o pesar dos milhares de livros que foram meus e de meus pais, que conheciam o tato da minha mão, o cuidado do meu zelo, a atenção com que os limpava, mudava de lugar, encadernava, folheava, doava em blocos para serviço de outros. Livros que ficavam em nossa casa ou se espalhavam pelo mundo, na Faculdade de Poços, na de Araraquara, na Católica do Rio, na Unicamp, na USP, na Casa de Cultura de Santa Rita, na ex-Economia e Humanismo, além dos que foram furtados e sabe Deus onde estão – todos sentindo pena do amigo se desfazer em mero pó e lembrando os tempos em que viviam com ele, anos e anos a fio. Então, dos recantos onde estão, em estantes de ferro e de madeira, fechadas ou abertas, bem ou maltratados, usados ou esquecidos, eles hão de chorar lágrimas invisíveis de papel e de tinta, de cartonagem e percalina, de couro de porco e pelica, de couro da Rússia e marroquim, de pergaminho e pano. Será o pranto mudo dos livros pelo amigo pulverizado que os amou desde menino, que passou a vida tratando deles, escolhendo para eles o lugar certo, removendo-os, defendendo-os dos bichos e até os lendo. Não todos, porque uma vida não bastaria para isso e muitos estavam além da sua compreensão; mas milhares deles. Na verdade, ele os queria mais do que como simples leitura. Queria-os como esperança de saber, como companhia, como vista alegre, como pano de fundo da vida precária e sempre aquém. Por isso, porque os recolheu pelo que eram, os livros choram o amigo que atrasava pagamentos de aluguel para comprá-los, que roubava horas ao trabalho para procurá-los, onde quer que fosse: nas livrarias pequenas e grandes de Araraquara ou Catanduva, de Blumenau ou João Pessoa, de Nova York ou New Haven; nos sebos de São Paulo, do Rio, de Porto Alegre; nos buquinistas de Paris e nos alfarrabistas de Lisboa, por toda a parte onde houvesse papel impresso à venda. O amigo que, não sendo Fênix, não renascerá das cinzas a que está sendo reduzido, ao contrário deles, que de algum modo viverão para sempre.

6 de setembro de 2019

Dor e glória, de Pedro Almodóvar

Não sou uma fã incondicional dos filmes de Almodóvar, apesar de ter gostado bastante de alguns. Mas este é bem diferente, sem gritos ou grandes melodramas. Tem muitos laivos de autobiografia, o que o torna ainda mais interessante.

Salvador Mallo (Antonio Banderas) é um realizador de cinema homossexual que deixou de trabalhar devido ao seu estado físico (dores nas costas que não o largam) e psicológico (uma depressão intermitente que não o deixa ter uma produção contínua). O filme intercala a sua deambulação presente com vários regressos ao passado conseguidos graças à heroína que começa a consumir: à sua infância pobre mas feliz, repleta da presença da mãe, à sua capacidade de aprender, ao seu primeiro objeto de desejo, ao seu único relacionamento sério terminado há muitos anos.

É um filme lindo sob vários aspetos: a realização e a interpretação são ótimas, a fotografia é belíssima, a história comovente, cheia de tristeza mas também com muita esperança. Se puderem, não percam.

3 de setembro de 2019

Desafio dos pássaros

Inscrevi-me às escuras, totalmente sem saber ao que vou. Apenas sei que semanalmente, durante 17 semanas, me darão um tema que terei de desenvolver em 400 palavras. Conhecendo-me como me conheço, ficarei bem aquém deste valor.

Publicarei aqui no blogue mas também será publicado aqui. Espero estar à altura e espero que gostem.

desafiodospassaros.blogs.sapo.pt

2 de setembro de 2019

Até à eternidade, de Caitlin Doughty

Depois de ter lido Smoke gets in your eyes, sobre a sua experiência como colaboradora num crematório, tinha de ler este livro sobre o percurso de Caitlin Doughty pelo mundo em busca de outros modos de encarar a morte. E como aprendi.

Na Indonésia, conhece o povo que vive em Toraja, que convive com os seus mortos por vezes durante anos a fio, conservando-os em casa ou abrindo as suas sepulturas e confraternizando com eles regularmente. No Colorado, assiste a uma cremação original, numa pira funerária ao ar livre. Em Tóquio, fica a conhecer desde as tecnologias mais modernas, que através de um sistema robotizado permite aos familiares visitarem quando querem as cinzas dos falecidos, até à tradição de, depois de uma cremação, serem os familiares a separarem os ossos das cinzas com a ajuda de pauzinhos. Na Carolina do Norte, visita um complexo onde os corpos doados são decompostos ao ar livre, num processo de compostagem. Na Califórnia, praticam-se enterros naturais no deserto, com os corpos enterrados diretamente na terra apenas embrulhados num sudário.

E depois há também casos como o Tibete, que Caitlin não visitou mas que refere, em que os corpos são cortados em pedaços para alimentar os abutres, num fecho da cadeia alimentar.

Sempre que pode, Caitlin critica o sistema tradicional norte-americano, onde a cremação e o enterro são o mais asséticos possível, reduzindo ao mínimo o contacto com os mortos. O seu tom amigável e às vezes sarcástico ajuda, e as maravilhosas ilustrações de Landis Blair também.

Mais uma vez, e depois de já ter lido os dois livros, fico com a certeza de que, se um dia for possível em Portugal, gostaria de ter um enterro natural, sem caixões e sendo depositada diretamente na terra. Acreditemos que algumas tradições instituídas possam mudar.

29 de agosto de 2019

Quando é bom também é para dizer

Ando a fazer os meus exames anuais decorrentes da disseção da aorta que tive no dia do nascimento das miúdas, e como sempre faço tudo no Hospital Santa Maria. A semana passada foi a ressonância magnética, e em menos de uma hora cheguei, fiz o exame e saí. Ontem, em cerca de 90 minutos cheguei, fizeram-me um ecocardiograma, tirei sangue para análises e saí.

Às vezes pode correr tudo mal, mas muitas vezes anda tudo sobre rodas. E, pasme-se, foi no SNS! Nem sempre os privados funcionam tão bem.

23 de agosto de 2019

E as minhas férias foram... delas!

Nunca nestes três anos tinha sentido tanto a necessidade de ter férias depois das férias como este ano. Entre idas à piscina, à praia e a parques infantis, à mistura com muitas birras para comer e dormir, estas duas semanas foram absolutamente esgotantes.

A conclusão a que chego é: elas estão a precisar de escola. Não para me «livrar» delas, mas porque precisam de rotina, de regras, de refeições e sestas a horas certas, de não estarem sempre em ação. Desde que nasceram, pela primeira vez sinto-me em privação de sono, pois as noites refletem a agitação dos dias, com muitos acordares agitados e madrugadores e muita resistência nas sestas.

Para elas foi bom, tenho a certeza, mas também será bom e positivo terem uma vida mais regrada.







2 de agosto de 2019

Vamos de férias!

Continuaremos pelo Instagram.

Atelier, de Diogo Freitas da Costa

Gostei muito desta série de 12 retratos/entrevistas sobre artistas plásticos portugueses, que alteraram a perspetiva que tinha de alguns deles. Em pequenos textos, o autor começa por descrever os espaços de trabalho de cada um, os processos de trabalho que seguem, as rotinas que têm, para terminar com algumas perguntas sobre o seu percurso, o que pensam ao idealizar e realizar uma peça, o que querem fazer chegar ao público.

Acima de tudo, este livro acaba com a ideia de que os artistas são uns «artistas», pessoas que vivem ao sabor do vento sem um rumo muito definido. Pelo contrário: na maior parte dos casos há regras, há rotinas, há método, há organização.

Ficamos a conhecer tanto ateliers mínimos, dentro de lojas ou casas de habitação, como ateliers gigantescos, do tamanho de hangares. Artistas que se recolhem dias a fio e artistas que pouco tempo param em cada sítio. Julião Sarmento, Pedro Calapez, Miguel Palma, Rui Sanches, Alexandre Farto (Vhils), Joana Vasconcelos e Ana Vidigal são alguns dos entrevistados, em áreas tão diferentes quanto a pintura, a escultura, a colagem, o vídeo ou a instalação.

31 de julho de 2019

Contra a brigada do jerrycan

O dia 12 de agosto, mais conhecido pelo dia em que começa a greve dos camionistas que mais uma vez lançará o caos no país, aproxima-se rapidamente, e não faltam por aí pessoas com ideias mirabolantes para se safarem com o combustível em falta.

Mas o mais fantástico é que veio da televisão a sugestão mais irresponsável que ouvi até agora. Propõem os média que as pessoas se abasteçam previamente de combustível em jerrycans e que o reservem até precisarem dele. Espero, sinceramente, que a população seja sensata e não o faça. Terá toda a gente consciência do que é ter gasolina ou gasóleo em casa ou numa garagem? No que pode acontecer se houver um azar? E que nenhum seguro cobrirá danos causados por tais causas?

Não haverá soluções perfeitas (a não ser, claro, os senhores camionistas ganharem um pouco de bom senso e abrirem mão de demasiada ambição), mas o melhor, a meu ver, é ir mantendo os depósitos cheios desde cedo, repondo regularmente até não ser mais possível, quando começarem as filas. E, depois, ser poupado nas deslocações. Ah, e ter também à mão a lista das bombas «de serviço», não vá haver uma emergência.

É o que farei. Não sem alguma angústia, claro.

PS: Just in case, ter também em casa alguns itens não perecíveis, para 3 ou 4 dias, deixando alguma coisa nos supermercados para chegar para todos.

30 de julho de 2019

Um inverno, sete sepulturas, de Christoffer Petersen

Chegou a vez da Gronelândia como cenário de um policial nórdico. Paisagens desoladoras, capazes de nos fazer frio até enrolados no melhor edredão do mundo, imaginando águas geladas e grandes icebergues a passar em frente à janela.

Este é um dos tipos de policiais de que mais gosto, os que juntam a parte do crime propriamente dito à contextualização sociológica onde o mesmo decorre. O autor, Christoffer Petersen, viveu sete anos na Gronelândia, onde se imbuiu de toda a sua cultura, hábitos e preocupações, e isso é visível no livro.

A história tem como protagonista o ex-polícia David Maratse que, lesionado e reformado, escolhe a pequena vila de Inussuk para viver, caçando, pescando e observando os icebergues. Logo à sua chegada, numa saída de barco, encontra um cadáver na água, que se vem a saber ser da filha da primeira-ministra gronelandesa. E a história desenvolve-se a partir daqui. Mas, como já disse, o que a torna mais interessante é o que a rodeia: o que é ser ou não ser gronelandês, a luta por uma identidade de uma região que pertence à Dinamarca.

Vale a pena experimentar. Eu fiquei com curiosidade de ler os próximos.

24 de julho de 2019

Theft by finding - Diaries 1977-2002, David Sedaris

David Sedaris é, a meu ver, um dos maiores humoristas da atualidade. Através da sua extraordinária capacidade de observação, consegue construir histórias absolutamente hilariantes que achamos que só poderiam ser inventadas... mas não são.

Neste «Theft by finding», que significa o contrário de «achado não é roubado», Sedaris aproveita tudo aquilo com que se depara para narrar episódios que só podiam ter sucedido com ele ou através dos olhos dele. O período temporal é longo, 25 anos da sua vida, passando por Raleigh, Nova Iorque, Paris e Londres e abarcando desde a idade do jovem adulto, dependente de estupefacientes, álcool e incapaz de manter um emprego estável, até se tornar conhecido pelas rábulas e textos que foi construindo.

Faz muito sentido ler estes diários, sobretudo se se conhecer alguns dos seus livros de crónicas. Mal posso esperar pelo segundo volume.

19 de julho de 2019

Portugal insólito: barragem de Varosa

O nosso país não para de me surpreender. Desta vez foram as imagens da escadaria da barragem de Varosa, em Lamego, uma serpente que desce a pique 76 metros do cimo da barragem até ao terreno natural. Infelizmente, não consegui descobrir em lugar algum quantos degraus são.


16 de julho de 2019

As minhas filhas são info-excluídas

Não se ofenda quem pensar ou fizer o contrário de mim, mas tenho de partilhar aqui o que penso sobre o assunto. A Luísa e a Maria são info-excluídas. Com 3 anos, até hoje nem um minuto estiveram com o meu telemóvel ou com o meu tablet nas mãos, mesmo que a ver filmes de desenhos animados, jogar jogos difáticos, o que seja. Nem um minuto.

Como raramente me veem com tecnologias nas mãos, acabam por não querer imitar, e como nunca lhes mostrei o que está lá dentro não podem querer aquilo que não sabem que existe. Elas fazem brincadeiras interativas, mas com livros, elas praticam atividades de role-play, mas com os seus bonecos, elas aprendem as cores e algumas letras e números, mas com peças de madeira e associando-as aos nomes de pessoas e animais que conhecem.

Não sabem contar até 50, não conhecem a Masha, a Peppa ou o Noddy. Mas procuram as letras que conhecem quando andam pela rua, gostam de andar de triciclo e de escorregar no parque infantil de cabeça para baixo. Jogam à bola e gostam que eu lhes faça bolhas de sabão. Às vezes sentam-se ao pé de mim na cozinha enquanto preparo o jantar. Para a mesa não levam brinquedos e se quiserem entreter-se é a conversar. Televisão, talvez vejam umas duas horas por semana ao todo.

Se sou melhor mãe assim? Não faço a menor ideia. Se as estou a privar de algo a que a maioria tem acesso? Talvez, mas tudo virá a seu tempo. E se um macaco aprende a navegar num telemóvel, elas também o aprenderão num ápice. Quando disso precisarem.