2 de novembro de 2015

Sobre os manuais escolares


É muito raro eu escrever aqui sobre o meu trabalho, mas desta vez tem mesmo de ser. O ano letivo começou há algum tempo, as editoras foram amplamente acusadas de ganância e lucros milionários, e optei por não dizer nada. Agora já passou algum tempo, então vamos a isso.

Vem isto a propósito deste artigo publicado no Público de ontem, em que se comparam duas edições do mesmo manual escolar. Diz o artigo, recorrendo a essas duas edições, que 80% do manual se mantém igual, sendo vendido como novo e enganando os utilizadores. E isso é verdade (a parte dos 80% iguais). Mas há que conhecer muito bem todas as facetas deste problema para podermos tirar conclusões.

1. Porque é que se editam dois manuais para o mesmo ano e disciplina num intervalo inferior a seis anos (o período de vigência previsto na lei) com tão poucas alterações?
Porque na Educação toda a gente gosta de mexer, a começar pelo Ministério. E este implementou ao longo dos últimos anos as Metas Curriculares, documentos que complementam os programas mas que às vezes até os contrariam. Mas as Metas é que valem. E, na sequência da decisão, os manuais teriam de ser reformulados e certificados para poderem ser oficialmente usados. Ainda que as alterações pudessem não ser muitas.

2. Mas as editoras tinham mesmo de os alterar?
Sim, não podendo as antigas edições serem vendidas por não cumprirem as Metas. Essas edições tiveram de ser retiradas do mercado.

3. Várias declarações do Ministério sugerem publicamente que os alunos podem usar invariavelmente as duas edições. É verdade?
Oficialmente tal não deveria ser possível, se não, para quê implementar as Metas se alguns alunos não as pudessem seguir? Na verdade, se há disciplinas, como Ciências Naturais ou História, em que as alterações são poucas, em outras, como o Português e sobretudo a Matemática, as alterações são bem maiores. Em Português, obras que eram obrigatórias num ano passam a ser obrigatórias noutro. Em Matemática, conteúdos de 5.º ano passam para o 4.º (e às vezes vice-versa), além de os métodos de ensino serem bastante diferentes. E de voltarem a ser ensinados conteúdos que não o eram há muitos anos (isto é aplicável sobretudo no ensino secundários).

4. O que ganham as editoras com isto?
Praticamente nada, e em editoras mais pequenas até se perde dinheiro. Isto porque, quando se planeia um manual escolar, se fazem as contas para o mesmo durar seis anos, com alterações mínimas como uma ou outra gralha. Ora, alterar um manual dois anos depois de este ter sido editado pela primeira vez deita toda a rentabilidade abaixo.

5. Os manuais são mesmo assim tão caros? 
Os preços de cada manual variam bastante, dos cerca de €9 no 1.º ciclo aos mais de €20 no ensino secundário. Talvez pareça caro aos encarregados de educação, que têm de comprar muitos, mas pensemos nos custos da sua produção: 
- em média, um ano de trabalho por manual antes da sua publicação (autores, editores, paginadores, criativos);
- custos com ilustradores criativos, fotógrafos e desenhadores técnicos;
- pagamento a consultores pedagógicos e científicos que permitem afinar todos os conteúdos;
- pagamento da certificação prévia, que varia entre os €3500 e os €5500 por manual consoante o ciclo de ensino. De notar que com as reformulações das Metas, muitas certificações tiveram de ser pagas duas vezes em três ou quatro anos;
- custos de impressão e distribuição;
- pagamento de direitos de autor.
Parece pouco? Mas não, é muito. Não é um negócio milionário, é um negócio que se vai mantendo rentável à custa de muito boa gestão e de muito trabalho.

6. Quanto «vale» então um manual escolar?
Na minha perspetiva, o seu valor intrínseco é muito alto, se pensarmos que será usado durante todo um ano letivo e que, muitas vezes, os manuais são os únicos livros a que muitas crianças têm acesso. Compramos best-sellers por €20, lemo-los e colocamo-nos na prateleira. Mas se gastarmos €15 num manual escolar, a usar durante nove meses, já achamos muito. Podia ainda explorar o tema dos pais que se queixam do preço dos manuais mas que depois compram as melhores mochilas, as da moda, gastam dinheiro em jogos para as consolas de que os miúdos se fartarão depressa e gastam dezenas de euros em concertos a que levam os filhos para que eles não fiquem mal vistos perante os colegas. Mas isso será tema para outra vez.

Peço desculpa pela extensão deste tópico (que não é nada meu hábito escrevê-los tão longos), mas queria mesmo expor a minha perspetiva e alguns factos que muitos não conhecem.

17 comentários:

CAP CRÉUS disse...

Vespa,

Vou ter que dizer qualquer coisa :-)

Estamos de acordo com a estupidez enorme por parte do ME em andar sempre a mexer nas "metas" e nas matérias e afins.
São uma cambada de idiotas que se acham superiores e querem deixar obra feita antes de se irem embora.
Os preços...bom eu acho que ter dado 54€ para livros da 2ª classe um claro abuso. De quem? Não sei.
Mas acho que: Os livros podem ter menos cor, podem ser mais pequenos, o papel pode ser de qualidade inferior e por fim, deixem-se de livros de apoio e de cd's da treta.
não retirando a tua razão e ainda por cima, com conhecimento de causa, continuo a achar que estamos a ser roubados e à grande.

Vespinha disse...

Cap, esses €54 por 2 livros é que é estranho. Compraste-os com CD? Se sim, isso encarece-os, e nem o CD nem os cadernos de atividades são de compra obrigatória.

Quanto ao papel, até isso é regulado pelo Ministério: 70g/m2 nos manuais dos alunos. Já as ilustrações, isso sim, é uma questão concorrencial. E o tamanho dos livros nunca pode ser muito menor, se não como se cumpririam as Metas que são tão extensas?

Sérgio S disse...

A minha questão prende-se mais com a quantidade de manuais. Vejamos a minha criança: no primeiro ano teve 3 manuais de portugues (matéria, exercicios, fichas), 3 manuais de matemática (...), 2 manuais de estudo do meio, 2 de ingles, etc...
No caso, os livros das fichas eram só para enganar, afinal tinham uns exercicios da treta e pouco mais...

CAP CRÉUS disse...

54€ pelo de matemática, PT e Estudo do meio.
Mas como se aquilo vem tudo dentro do invólucro?
E a camela da prof ainda pediu um livro de gramática, porque o de Português, não está como ela quer. Mais 7€.

O meu livro da primária "O Papu" era bem mais pequeno.
https://www.google.pt/search?q=Papu+-+livro&espv=2&biw=1920&bih=955&tbm=isch&imgil=s_DEENo2a43HWM%253A%253Bgxf3WtZYiFIrRM%253Bhttp%25253A%25252F%25252Fviagensaopassado.blogs.sapo.pt%25252F19102.html&source=iu&pf=m&fir=s_DEENo2a43HWM%253A%252Cgxf3WtZYiFIrRM%252C_&usg=__kTqKPpR6gHULdyUWbO-Dcy-Nx4o%3D&ved=0CDUQyjdqFQoTCJCpsaaE8sgCFUvSHgoduuAAuA&ei=bH43VpDDA8uke7rBg8AL#imgrc=s_DEENo2a43HWM%3A&usg=__kTqKPpR6gHULdyUWbO-Dcy-Nx4o%3D

LED disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
João disse...

Esclarecedor! Obrigado pelo texto

Vespinha disse...

CAP e Sérgio, todos os manuais podem ser vendidos em separado, todos, o livreiro tem de abrir o invólucro se só quiseres uma das peças. Ninguém é obrigado a comprar o pacote inteiro, informem-se sempre antes.

Bruxa Mimi disse...

Gostei do teu texto. Posso acrescentar que nem sempre os pais se queixam do preço dos manuais - às vezes, quando um professor diz que quer apenas os manuais (sem fichas), são os pais que compram as fichas porque querem que os filhos trabalhem mais em casa... (true story)

Ana Chagas disse...

Olá
Mais uma vez um tema pertinente sobre o qual há muito para dizer.
Adorei teres apresentado a tua perspectiva, a de alguém que trabalha na área. Muito valiosa mesmo.
Na minha opinião, existe uma verdadeira necessidade de se remodelar todo o ensino, nas suas várias questões e vertentes. A questão dos manuais escolares não passaria ao lado. O manual escolar, a meu ver, deve ser concebida para ser uma publicação de valor, de conteúdo consistente, e que este valor consiga perdurar para que o mesmo manual possa passar de mãos em mãos durante anos. Não podem continuar a ser descartáveis como agora parece ser a política. Novos capítulos, alterações, exercícios, fichas de trabalho, etc, deveriam ser disponibilizadas nos sites das editoras, alguns gratuitamente, outros por quantia mínima, para que professores, pais e alunos podessem imprimir as mesmas.
Posso estar enganada, mas acho que também seria melhor para todos, editoras, pais, etc, que deixasse de haver competição mercantil entre editoras. Que a cada uma fosse dada uma especialização, ex manuais de português, para que todas as escolas do país usassem o mesmo material base.

CAP CRÉUS disse...

Vespa, Vou voltar a este tema daqui a uns meses, pode ser?
Tens algures, algo escrito que defina essa parte da não obrigatoriedade de adquirir as fichas e os cd?

Vespinha disse...

CAP, estive aqui a ver um desses packs manual + caderno de atividades. Na folha branca que detalha o que está lá dentro está escrito o seguinte:

«Sob o ponto de vista pedagógico, os autores recomendam a utilização de todos os constituintes do projeto, que foram desenvolvidos de forma articulada, para proporcionar ao aluno uma rápida e fácil aprendizagem.

Obviamente, por opção do cliente, podem ser adquiridos separadamente, sem qualquer custo adicional.»

Unknown disse...

Bom dia.

Desculpem mas em 4 anos de 1º ciclo e vários professores, não conheci nenhum que não pedisse os livros e os respectivos cadernos de actividades (exercícios) e as fichas de avaliação. A única coisa que não exigem é o CD...
Esta é a realidade. Portanto sim, temos de comprar o pacote completo. E mais uma gramática à parte. E um dicionário. E, se possível (pedem com jeitinho), alguns dos livros do Plano Nacional de Leitura.
Coisa pouca para quem está nos 1os anos de escola e, a bem dizer, deveria ter mais tempo para brincar. Mas ainda traz trabalhos de casa porque as 8h que permanece na escola não são suficientes para tudo o está nas metas curriculares...
Ufa!
Ainda bem que terminei o ensino básico em 1985.
Boa sorte meninos!

Vespinha disse...

Mas isso não é uma imposição das editoras, mas dos professores...

CAP CRÉUS disse...

Obrigado Vespa!

E sim, totalmente em desacordo com os tpc. 8 horas de martirio deviam ser mais que suficientes.
8 horas...com 2 intervalos de meia hora cada um...brutal!

Joao P. disse...

Pessoalmente não me choca o preço dos livros, este ano o meu filho foi para o 3º ano e já tivemos que incluir o livro de inglês (ficou tudo a rondar os 75 euros, por 4 livros e um infindável monte de extras) Tenho algum receio quando ele for para o 5º ano, ai sim será a doer, Ainda assim, acho fascinante, os livros do básico e secundário, serem mais caros que os da faculdade (tirando uma ou outra excepção internacional) Na faculdade compro livros recomendados entre os 7 e os 18 euros (depois há aqueles mais técnicos mas que no fundo nos acompanham ao longo da vida na casa dos 30 a 70 euros) já no 5º um livro não fica em menos de 20 euros. Ainda assim tenho que dar razão à Rita, um bilhete para o Rock in Rio custa 60 euros e não vejo ninguém reclamar, os putos andam com iphones e telemoveis de 150 euros e ninguém reclama... o estudo é um investimento, a meu ver deveria ser totalmente gratuito para quem tivesse aproveitamento.

Ana Chagas disse...


Acho que o João P. lançou uma grande ideia: premiar os alunos com melhor aproveitamento através da oferta de manuais escolares e/ou propinas. E sim, concordo totalmente no que diz em relação aos telemóveis e bilhetes para festivais, entre outros tantos exemplos, que são ainda mais caros e frívolos quando comparados com a educação.
Sei que já nos dispersamos para outros temas, mas não posso deixar de concordar com quem acredita que a carga horária a que os miúdos são sujeitos é abusiva, e ainda mais sendo assim deveriam ser totalmente abolidos os tpc's, fazendo-se tudo na escola. É uma pena e um desperdício que na infância já nem haja tempo para se ser criança.

Vespinha disse...

Sim, a ideia do João é muito boa! Fomentar o empenho e premiá-lo, estamos a cair muito no facilitismo...