23 de março de 2016

Quando eu tinha de ser isenta

Há muitos anos, muitos mesmo, eu queria ser jornalista, influenciada pelo meu avô materno, que tinha histórias mirabolantes para contar acerca do que era ser jornalista nos anos 50. Entrevistar personalidades importantes, fazer a cobertura de prédios em chamas, viajar em porta-aviões... Nos anos 80, já reformado, continuava muito ativo, a trabalhar numa revista de turismo de um amigo e sempre em viagem. E assim fui para Comunicação Social.

Terminado o curso, fiz outro ainda mais especializado, no Cenjor, para formação de jornalistas, onde conheci grande parte dos melhores amigos que hoje tenho, daqueles que ficarão para toda a vida. Depois desse curso intensivo de um ano, fui estagiar para o Público, onde acabei por ficar colocada na editoria de Educação. E foi nessa altura, só nessa altura, que tomei consciência de que o jornalismo em que eu estava a trabalhar não era afinal a roda-viva que eu imaginara. Era algo bem diferente, monótono até, apesar de muito exigente em termos de horário. Escrevia sobre manifestações de estudantes, sobre despachos e decretos-lei, sobre mudanças nos programas e greves de professores e alunos. Havia sempre coisas a acontecer, só que eu não gostava de escrever sobre elas. E acabei por decidir sair, para trabalhar como editora de manuais escolares, algo que nem sabia o que era mas que se revelou bem mais desafiante, até hoje.

Dos tempos do Público recordo sobretudo o tempo do estágio, em que fazia um pouco de tudo e por isso podia variar. Ontem, nas minhas arrumações, encontrei este recorte, de uma reportagem que fiz sobre as touradas em Barrancos. Uma dos que mais me custou fazer mas que teve de ser, pelos motivos que quem me lê compreenderá.

6 comentários:

CAP CRÉUS disse...

Também quis ser jornalista.
Hoje vejo que não conseguiria. O escrever sobre algo que me enoja, ou aquela subserviência que se vê nos telejornais... Nem pensar.

E advogado! Defender esses porcos que por aí andam, ia-me fazer muito infeliz.

PEQUENOS DELITOS RENOVADOS disse...

Vespinha.... a vida de jornalista não deve ser fácil...
Eu não saberia ser isento. Eu sempre iria escrever sob a minha óptica... sob meu olhar.... Por exemplo, no Brasil, temos as touradas em Santa Catarina (A farra do boi), herdadas justamente dos imigrantes açorianos....e houve uma grande comoção....!!! Mas há que se olhar o lado cultural....!!!!
O importante para o jornalista deveria ser "contar" a história, deixando patente os vários ângulos da questão...
Perdoe-me a ignorância....!!

Pink Poison disse...

Eu nunca poderia ser jornalista, partia a tromba a qualquer toureiro, e juíza? bem, jamais... Certas profissões não dão para cabecinhas explosivas como a minha... Imagino sim a luta que foi escrever sobre touradas...
E como Socióloga, sei melhor do que muita gente , a luta que é respeitar o lado cultural e a tradição mas também sei que a sociedade se adapta a novos modos de pensar e na protecção dos animais que infelizmente as pessoas ainda julgam que só cão e o gato precisam de ser protegidos...

Ana Chagas disse...


Também eu, durante anos, quis ser jornalista. Mais precisamente repórter de guerra. Achava-me intrépida, e que não haveria nada mais nobre do que trazer a lume todas as iniquidades que muitos querem manter escondidas. Pensava eu, naquela idade em que somos tão idealistas, que mostrar a guerra seria um passo importante no caminho para a Paz mundial.
Hoje olho para os noticiários, e até reviro os olhinhos com quantidade de tempo que se dedica ao futebol.

Rita disse...

Ser jornalista deveria ser isso mesmo, ser isento, dar a conhecer os factos para cada um poder tirar as sua conclusões. Mas o jornalismo é feito por pessoas, e tenho muitas dúvidas de que alguém consiga ser cem por cento isento...

Essa reportagem em Barrancos foi a que mais me custou fazer, mas tinha de ser. No estoque final tive de fechar os olhos, e conter-me para não odiar todas aquelas pessoas que faziam e viviam a festa.

Ana Chagas disse...


Como te compreendo.